Memória e liberdade em Cachorro Velho

Livro da cubana Teresa Cárdenas narra a história de um velho escravo que busca a liberdade nas turvas lembranças do passado

Imagem: Shawn Theodore / The New York Times
por Emílio Pio

Durante uma entrevista para o canal de televisão Rede Minas, a escritora cubana Teresa Cárdenas falou sobre a dificuldade de escrever e cuidar dos filhos, sobre a dificuldade de se dedicar inteiramente à escrita. Lembro de a autora falar também sobre seu processo de escrita. O seu livro Cachorro Velho, publicado em 2005, conta a história de um escravo velho que busca na memória pulsões para se libertar das dores e do sofrimento. É um personagem que mergulha incessantemente na memória em busca da figura materna, em busca de liberdade.

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A autora falou durante a entrevista que não sabia explicar como conseguiu fazer uma descrição tão detalhada sobre como os escravos usavam ervas medicinais, sobre esse tipo de contato com a terra. De acordo com ela, esse conhecimento não foi transmitido por familiares, é algo que floresceu intuitivamente. Uma espécie de memória ou carga ancestral.

Sem dizer uma palavra, introduziu os pés dele no recipiente e os refrescou com água de moringa. Tinha sempre alguma guardada para qualquer remédio. Aquele líquido era quase milagroso, e tanto servia para curar um ferimento como para tratar uma indigestão ou afastar um mau espírito.

Súyere notou o tremor das mãos do velho, mas não disse nada.

— Vai ficar bom logo, logo — disse Cachorro Velho. Depois envolveu os pés do garoto em folhas de imburana e atou-as com uma tira de saco.

Cachorro Velho é um livro que explora a ancestralidade, e traz um retrato da escravidão em Cuba no século XIX. Cuba era destino do tráfico de escravos e lugar das grandes plantações de cana de açúcar.

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O personagem principal é um escravo velho, cansado, que aos poucos vê suas lembranças perdendo força na sua mente, um homem que não conheceu outra vida além da servidão, além da plantação de açúcar. “Cachorro Velho achava que sim, que já trabalhava desde o ventre de sua mãe.” Toda a história é sua memória em pedaços, fragmentada, às vezes próxima da realidade, e em outros momentos distante.

Um velho que protagoniza a luta pela libertação, lutando também por determinados aspectos de sua memória, de sua vida aprisionada no engenho. Ele reúne forças, pulsões, e busca repetir a história, viver a aventura de fugir, de buscar a liberdade. Sempre há a história de quem conseguiu fugir e foi para outro lugar, e se libertou do sofrimento.

O livro é uma reflexão sobre o passado latino-americano, sobre povos escravizados vítimas da opressão. A busca pela memória da mãe é uma luz fraca que emerge das lembranças de Cachorro Velho entre ecos da escravidão.

A recordação é uma espécie de voz dos silenciados, entre cenas de tortura, castigos e mortes, um retrato das lavouras, e da crueldade. A imagem da tumba.

Uma narrativa que reconstrói uma metafísica do povo negro a partir de uma espécie de memória ancestral. A memória é instrumento de poder e libertação, um caminho para tecer uma nova identidade, um caminho para a resistência. Uma narrativa de sucesso de fuga inspira a liberdade entre os escravos.

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A manhã em que tudo aconteceu não era diferente das outras que a tinham precedido. O sol flutuava sobre o campo como em todas as alvoradas, e os seixos do caminho se insinuavam entre os dedos dos pés descalços, como de costume.

Já no rio, ele arregaçou a calça e meteu os cavalos na água, sem perder tempo. Ainda devia colher as hortaliças para o almoço, empilhar carvão e ajudar as escravas domésticas em qualquer outra tarefa. Pensando em tudo o que lhe faltava fazer, começou a esfregar o lombo do primeiro animal com suavidade.

A água do rio estava fria e transparente. Alguns peixinhos vinham espiar perto de suas pernas. Na margem, abundavam os buracos de caranguejos e paguros. Cachorro Velho molhou a cabeça do cavalo com o pano, e então a viu. Ela vinha nadando em sua direção e, por momentos, o sol, que se filtrava entre as folhas das árvores próximas, desenhava de luz sua pele morena. O cabelo curto e muito crespo se apertava ao redor de sua testa e dos lados do rosto. Os olhos eram de gazela, amendoados e escuros.

De repente, ela submergiu na água como um peixe e na mesma hora emergiu muito perto dele, se agitando e rindo.

Somente nesse instante Cachorro Velho notou que a moça estava completamente nua.

Desconcertado, enredou-se entre os cabrestos dos animais e caiu ao comprido no rio. Quando conseguiu se levantar, estava encharcado dos pés à cabeça e ela ria sem parar.

Era a jovem mais bonita que ele vira em sua vida. Poderia ficar contemplando-a para sempre.

Nesse momento, ela voltou a cabeça e se afastou nadando corrente abaixo.

Sem pensar, ele se atirou ao rio e nadou desenfreadamente. Mas a moça já estava longe demais.

Um momento antes de sumir na curva, porém, levantou uma mão, dizendo-lhe adeus.

— Como é o seu nome? — esgoelou-se Cachorro Velho, quase sem forças.

Ela sorriu de novo e lhe gritou: — Asunción! Eu me chamo Asunción! — E sua silhueta desapareceu entre as sombras.

Ele ficou boiando, sem saber se voltava à margem ou se continuava atrás da moça.

Finalmente, saiu. Sentado numa pedra, começou a chorar sem saber por quê.

*Os trechos citados são da tradução de Joana Angélica d’Avila Melo, publicada pela Pallas Editora.

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