Melhor seria ser filho da outra! Política opõe músicos e fãs desatentos

De Rage Against the Machine a Ultraje a Rigor, a decepção política com os ídolos vem gerando alguns desencontros… ou encontrões

Imagem: Tankian, Roger, Morello e Lobão
por Danilo Matoso

Imagine-se num relacionamento de décadas. Você dorme com o outro, acorda com o outro, passa o dia ouvindo suas alegrias e lamúrias. A relação de muita gente com a música é assim, íntima. Alguns discos se tornam roupas mais chiques ou confortáveis que usamos no cotidiano. Os artistas, os músicos, se tornam namorados de longa data. Andam de pijama pela sala, fecham a geladeira com os nossos pés enquanto usamos fones.

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Mas já pensou se você descobre subitamente que aquela figura próxima, companhia na alegria e na tristeza, tem posições políticas muito diferentes da sua? E se você, encantado por sua beleza e seu charme, nunca prestou muita atenção ao que a pessoa falava? E se agora ela começa a gritar? E se você acorda um belo dia com um “adversário político” ao seu lado? Bem, a relação de muita gente com seus ídolos musicais tem passado por isso nos últimos anos – pela direita e pela esquerda. Recentemente, antigos fãs de bandas como Rage Against the Machine ou System of A Down manifestaram em redes sociais seu desagrado quanto a suas posições políticas.

Rage against que machine?

No último dia 9, o guitarrista do Rage Against the Machine, Tom Morello, tomou uma dura no Twitter: “eu era um fã até suas opiniões políticas virem à tona. A música é o meu santuário e a última coisa que quero ouvir é enrolação política quando estou escutando música. No que me diz respeito, você e a Pink já eram. Continue falando e arruinando sua fanbase”. A cantora Pink – mais famosa nos Estados Unidos que por aqui – também costuma criticar a administração Trump em suas músicas e redes sociais desde… sempre.

Morello é um liberal – o que parece ser considerado “esquerda” nos Estados Unidos – mas, mesmo fora do Rage Against the Machine, chegou a puxar um sonoro “Fora Temer” num show em Interlagos em 2017 e fez questão pontuar há um ano que Bolsonaro é um fascista em entrevista à revista britânica New Music Express. Evidentemente, o guitarrista desce o sarrafo em Trump sempre que pode, e daí a revolta de parte de seu público que parecia até ali não ter se interessado muito pelo que ele tinha a dizer. Um outro “fã” tentou desdenhar: “Mais um músico de sucesso que se torna instantaneamente um especialista em política”. A carteirada de Morello veio na lata: “Não é preciso ser formado com louvor em Ciência Política na Universidade de Harvard para reconhecer a natureza desumana e imoral desse governo, mas bem, por acaso eu sou formado com louvor em Ciência Política pela Universidade de Harvard então eu posso confirmar que é isso mesmo”.

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O vocalista da banda System of A Down, Serj Tankian, pediu recentemente a renúncia de Trump durante os protestos antirracistas nos Estados Unidos – natural, afinal toda a banda é composta por armenos. Em entrevista ao podcast Side Jams with Bryan Reesman, o músico disse que frequentemente lê em suas redes sociais “eu adoro suas músicas, mas não quero nem saber de suas ideias políticas”, e que seus próprios seguidores se encarregam de responder com razão: “será que vocês não ouviram as putas letras nos últimos 20 anos? Ele sempre disse esse mesmo tipo de coisa através de sua música. Vocês só dançavam porque curtiam a pegada? Será que realmente vocês não estão entendendo a mensagem?”.

Aparentemente é justamente isso o que acontece. Músicas muito aceleradas, vocais gritados, a letra passa batida: basta saber alguma coisa do refrão e gritar mother fucker no final. Mas espera lá. Será que não prestaram atenção sequer aos nomes das bandas? Afinal de contas, a banda de Morello se chama Fúria contra a máquina e a de Tankian Abaixo o sistema da A[mérica].

Talvez o episódio mais amplo de decepção de fãs “desatentos” com a posição política de seus ídolos tenha ocorrido nos shows de Roger Waters no Brasil em 2018. O músico abraçou a campanha contra Bolsonaro, que qualificou de “insano” e o pregou num painel de neofascistas junto com Trump e Le Pen no telão de seu palco. Metade do público vaiou. Mas convenhamos: que parte de Another brick in the wall eles não haviam entendido?

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Cobrar “neutralidade política” desses artistas seria como cobrar isenção de um Bob Dylan, uma Joan Baez, uma Mercedes Sosa ou um Chico Buarque – resguardadas as diferenças musicais. Aliás, nunca é demais lembrar que o próprio Chico teve, em seu tempo, “manifestações de apreço” ambíguas vindas de seus próprios censores. Um deles revelou que, embora tesourasse as letras do artista em seu trabalho, gostava de Carolina e d’A banda. Talvez porque Chico tenha tirado onda até com o então presidente Medici: “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. Melhor se garantir.

Ustraje a rigor

A decepção da fanbase conservadora com os músicos de esquerda talvez tenha seu contraponto, no Brasil, na decepção de quem apreciou em sua juventude o repertório de um Ultraje a Rigor ou de um Lobão. Afinal, durante os anos da redemocratização na década de 1980, toda subversão parecia progressista, todo humor parecia irreverente. O tempo mostrou que não era bem assim. Talvez muito do que parecesse ironia fosse a verdade nua e crua.

O primeiro grande sucesso do Ultraje, por exemplo, vaticinava em 1985: “a gente não sabemos escolher presidente, a gente não sabemos tomar conta da gente, a gente não sabemos nem escovar os dente, tem gringo pensando que nós é indigente”. Parecia uma ironia – afinal era época das Diretas já. A julgar pelas posições políticas que o vocalista da banda, Roger Moreira viria a externar décadas depois, não se tratava de ironia. Era um genuíno lamento pelo fim da ditadura. E que dizer de “Nós vamos invadir sua praia”, que parecia ser uma saudação ao caráter democrático das praias? Nada disso, ali sim era ironia. Nós que não entendemos nada.

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Hoje Roger é um direitista empedernido. Fez campanha pelo impeachment de Dilma, fez campanha pela eleição de Bolsonaro e faz propaganda conservadora. Roger tem um milhão de seguidores no Twitter e se tornou um dos principais ativistas da extrema-direita, aparecendo na TV regularmente à frente da banda de apoio no talk show de Danilo Gentili – mais um dos 2.498 arremedos de Johnny Carson que pululam as TVs de todo o mundo. Ao contrário do humorista, porém, recusa-se a abandonar o barco do Capitão Cloroquina – e inclusive assinou a lista pela criação de seu partido, o Aliança Pelo Brasil. Se não era ironia, resta-nos concordar com refrão do Ultraje: Roger é um inútil.

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É claro que, como todo o mundo, muitos músicos também mudaram de posição política. Lobão por exemplo, tem se mostrado uma especie de andarilho ideológico raivoso talvez comparável apenas a Ciro Gomes. O iconoclasta da década de 1980 chegou a apoiar publicamente a candidatura de Lula à Presidência em 1989, estando à frente de um movimento artístico de ruptura com as gravadoras dez anos depois. Na última década porém tornou-se seguidor de Olavo de Carvalho, defendeu o impeachment de Dilma, apoiou a candidatura de Bolsonaro… e se arrependeu. Cada vez mais longe dos verdes anos, em que tudo é permitido, fica mais difícil para Lobão o sonho decadence avec elegance. Vai sem elegância alguma mesmo.

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