Medida Provisória é literal demais, mas ainda emociona

Excesso de simbolismos transforma estreia de Lázaro Ramos num manual ecumênico e pacifista contra o racismo

Taís Araújo e Alfred Enoch protagonizam uma distopia não tão distopia assim. Imagem: divulgação
por Henrique Nunes

A câmera está focada em dois copos. Num deles, o café se mistura ao leite lentamente. No outro, o café permanece puro, “não miscigenado”. Em outra cena, o ministro racista aborda um sorveteiro na rua e pede um picolé de chocolate. O quadro se fecha em seus lábios para mostrar o desejo do vilão pela cor (e sabor) numa antítese tão explícita quanto, digamos, insípida. Ainda temos a Lei 1888 que remete à Abolição da Escravatura e uma aclamação ao pacifismo ilustrada pela troca de um revólver por um livro.

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Em meio a tantos simbolismos, a tantas verborragias panfletárias, eis que Medida Provisória se sustenta a partir de um sintoma tão fugaz quanto indispensável: a benevolência do público enviesado e da crítica que, por razões óbvias, pegará leve e não dará munição aos detratores de uma obra que ataca claramente o bolsonarismo e suas entranhas.

Importante dizer que a estreia de Lázaro Ramos na direção acerta ao levar para as telas uma história tão contundente sobre opressão e racismo bem no momento mais arriscado e perigoso para a democracia do país – e para a vida das pessoas de “melanina acentuada”, como são chamados os negros no filme. Acerta, mesmo que em partes, também ao fazer do didatismo um grande instrumento de ridicularização do discurso dessas camadas privilegiadas, dessa horda de brancos que ainda tenta emplacar a tese de que não existe racismo por aqui. E que tudo não passa de “mimimi”.

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Os diálogos, aliás, são quase que a reprodução na íntegra desse discurso. “Racista, não. Já fui até amiga de uma negra!”, diz uma das brancas de Medida Provisória. Nem o verniz da caricatura apropriada pela ficção consegue impedir o riso, ainda que meio constrangido, de quem está nas poltronas do cinema.

Outro ponto em favor está no elenco, que se entrega ao projeto como se de fato pudesse “converter” racistas a mudarem de ideia sobre “mandar os negros para o lugar de onde vieram”. Tais Araújo e Seu Jorge (o alívio cômico da trama) estão irretocáveis. Adriana Esteves e Renata Sorrah, representando dois perfis de racistas (a que tem poder e a cidadã comum) são mega convincentes.

Sabemos, no entanto, que Medida Provisória só será visto por quem (ao menos em tese) já está do lado do oprimido e quer a qualquer custo derrubar o opressor – o governo, no caso. Assim, o filme serve mais para inflamar os convertidos do que para catequizar novos apoiadores, como aconteceu com Marighella e, em maior escala, Pantera Negra. Note que, quanto se trata de obras claramente políticas, este tipo de atribuição se torna adereço indispensável.

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Infelizmente, até para os convertidos algumas cenas devem causar incômodo, já que o recurso da caricatura e da simbologia literal tende a reduzir a força narrativa do discurso – como na cena da troca da arma pelo livro. O mais grave, no entanto, é a história “pisar no freio” bem num momento em que esperávamos uma atitude mais radical. Sem entregar o que acontece, há uma tentativa explícita de criar uma simetria entre negros e brancos numa cena de violência, como que para nos dizer “todos os lados têm pessoas boas e ruins”. Este é o momento, para dizer o mínimo, que mais rebaixa o filme a uma obra qualquer, feita para não causar problemas com o público médio.

No geral, a missão pela qual se debruça Medida Provisória tem sido bem sucedida: o filme estreou muito bem e vem lotando as salas de cinema mesmo após boicote burocrático da Ancine e campanha de ódio mobilizada nas redes sociais. Também tem alimentado algum debate, mas sem a dimensão pela qual talvez esperasse alcançar, já que cada detalhe foi pensado para “militar” sobre a causa antirracista.

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Talvez parte da audiência saia do filme com a sensação de que as coisas poderiam ser “menos óbvias”. Afinal, só “temos a arte para não morrer da verdade”, como bem definiu Nietzsche. Por sorte, coube à cena final – ecumênica, sublime, apoteótica – esse papel de nos fazer sonhar, mesmo diante de uma interminável guerra contra o sistema.

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Aliás, quando Bolsonaro cair, O que se Cala, de Elza Soares, deveria ser instituída como o Hino Nacional do Brasil.

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