DJ Kowalsky: “Não existe estilo de música ruim”

Conheça um pouco da história e da visão musical de um dos principais DJ’s da noite belorizontina, para quem “uma pista de dança pode ser uma história”

Imagem: Kowalsky na festa Alta Fidelidade
por Danilo Matoso

Danilo Queiroz, mais conhecido como DJ Kowalsky, é ativo na noite de Belo Horizonte há 25 anos. Nessa trajetória, fez de tudo um pouco: produziu festas em casas de strip-tease do centro da cidade, discotecou regularmente em casas noturnas como A ObraStudio Bar ou A Central, participou de grandes festivais musicais como o Eletronika – em que dividiu as picapes com o DJ Rapture em 2001.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

Sua mais longeva empreitada recente é a festa Alta Fidelidade, com 10 anos e mais de 100 edições, em que ele e os DJs Fael, Deivid e Garrel só tocam vinis, de diversas épocas e gostos. Ouvir e discotecar vários gêneros não o impede de também conhecer profundamente vários deles. Quando produzia a festa Ctrl+Shift com o DJ Blip, no início dos anos 2000, especializou-se nos desdobramentos contemporâneos dos breakbeats, tornando-se um dos primeiros DJs nacionais a tocar Grime e Dubstep em nossas pistas. O Partisano conversou com Kowalsky para conhecer um pouco mais de sua visão sobre seu ofício e paixão: a música.

O Partisano: A pandemia impôs limitações imediatas a casas noturnas em todo o mundo, que precisaram ser fechadas. Shows e festivais têm sido cancelados. Você tem acompanhado os desdobramentos para produtores e DJs? O que tem acontecido no meio?

Danilo Kowalsky: Impôs sim. Festas com DJs e apresentações de DJs envolvem quase que obrigatoriamente aglomeração e contato físico né? De imediato todo mundo recorreu às tecnologias da internet para fazer lives. Aparece um DJ fazendo live a cada minuto no meu Instagram. Eu mesmo ainda não fiz. Fiquei com alguma preguiça. Mas assisti a algumas interessantes.Parece que muita gente curtiu o formato – que já vinha sendo usado mesmo antes da pandemia. Agora que parece ser a única forma de agregar público, eu não sei se as limitações desse formato ficam mais evidentes. Uma delas é a melancolia de ver e ouvir um lance energético estando na calma da própria casa.

Ouvi relatos de amigos DJs que não curtem tanto a ideia. Ou acham que o formato deve ser aproveitado para criar eventos que transcendam o lance festa. Meio complicado mesmo se engajar numa festa que não é festa, cada um em frente à sua tela. Eu e meus sócios na Alta Fidelidade, nossa festa mensal, ainda estamos pensando como levar nossa discotecagem na festa para as pessoas, que vem pedindo. Talvez acabemos fazendo uma coisa nesse formato live. Para ser legal para o público precisa ser legal pra gente também. Senão não tem graça nem clima, né?

Agora, falando do mercado profissional de eventos, a queda de renda desses profissionais aí é quase total mesmo. Pense: não só artistas. Produtores, técnicos, equipes de fornecedores de bar, de serviços. Não há nada no horizonte que sinalize a liberação de eventos. Deve demorar. Eu acho que esse ano deve ser sem chance. E mesmo depois. Talvez as pessoas reflitam sobre a maneira como se divertem nesse tempo de abstinência.

OP: Algum desses eventos de música estilo live pela internet lhe chamou a atenção especialmente?

DK: A grande maioria dessas lives acaba sendo de gente ligando ali a câmera do celular e mostrando a si mesmos e a fonte da emissão do som. Algumas com preparação de cenário e iluminação. Outras com preparação nenhuma, estilo na tora productions com a luz do cômodo mesmo, roupa suja no canto, gato passando… Ambas podem ser legais. Ou não.

Outras acabam adotando um formato bate-papo com música, como foi a live do DJ Premier junto com o RZA, do Wu Tang Clan, cada um no seu estúdio. Foi muito assistida e tava divertido. O pessoal também tem tido umas ideias diferentes, como usar imagens sintetizadas ao invés de simplesmente filmar a si mesmo num local. Acho que existem muitas ideias a serem exploradas. Talvez até mais ideias do que a tradicional ideia do palco com o público em frente. Ao mesmo tempo que nada especialmente me chama atenção, me chama atenção o potencial que de fato existe. E acho que nem depende da tecnologia disponível. Depende muito mais de como usá-la para propor experiências.

OP: Você acha que alguma dessas novas ideias, ou novas formas de socializar a música, veio pra ficar? Há um “novo normal” surgindo no meio da música eletrônica?

DK: Sinceramente eu não sei dizer. Uma coisa é certa: o formato live já havia. Se vamos ver um impulso e algo a mais que permaneça, eu não sei. Talvez sim. Ou talvez as pessoas corram com vontade aos eventos com gente quando eles voltarem. Imaginando que essa volta será gradual, o que me parece o mais correto, talvez o formato com distância social também tenha seu momento estendido.

Leia também:  A importância de entender e produzir nossas histórias

A questão maior eu acho que está nas pessoas e na percepção delas. O que elas querem mais? Os eventos em si ou querem as pessoas mesmo? Eu acho que aquilo de que as pessoas mais precisam é realmente de outras pessoas. Por isso é muito difícil que um formato solitário como uma live se transforme no novo normal. A Alta Fidelidade não é uma festa de música eletrônica, embora tenhamos momentos…

OP: Como é a Alta Fidelidade?

DK: Alta Fidelidade existe há 10 anos. Em julho agora comemoramos 11. É uma festa bem simples. A ideia foi de amigos que queriam tocar somente discos com uma premissa totalmente livre. E assim foi. Somente discos e som variado a noite toda. Acho que a festa fez sucesso por causa dessa variação de sons. Éramos 5. Hoje somos 4. O que aumenta ainda mais as possibilidades de variação.

Estamos limitados, claro, ao que nós mesmos temos em nossas discotecas. Não podemos tocar algo que saiu ontem em mp3 e que não exista prensado em disco de vinil. Mas isso não quer dizer que toquemos somente coisa antiga. Temos discos que foram lançados esse ano, por exemplo. O que surpreende muita gente que, naturalmente com pouca informação sobre o mercado de discos, coisa comum atualmente, não imagina que ainda lancem discos. Então temos sons atuais e sons de todas as décadas de ouro aí na música popular mundial, ou seja, 50, 60, 70, 80, 90 e 00. Mas refletindo bem, como a festa é 100% vinil, e a era de ouro das gravadoras coincide com a era de ouro do formato disco, de repente existe sim uma tinta mais forte dos anos 70, 80 e 90 na festa.

A festa teve e tem seus próprios hits. As músicas que viraram hits na festa e que as pessoas sempre esperam a hora de ela tocar. O primeiro hit criado na festa foi Lindo Lago do Amor, do Gonzaguinha. Apesar de muitos outros terem sido criados, até hoje tem gente que pede essa. Tivemos vários hits nesse meio tempo. Daft Punk, Rihanna, Belchior, Afrika Bambaataa, Alípio Martins, The Bug, Sade. Curioso que um dos últimos hits também seja uma música brasileira, Lucro: Descomprimindo do Baiana System.

OP: Você acredita que essa variedade de estilos sempre foi sua característica como DJ?

DK: Sim, com certeza. Faz parte da minha formação de caráter como ouvinte de música. Ser DJ foi uma consequência do excesso de música. Da variedade. Até mesmo quando me proponho a discotecar determinado estilo sempre gosto de sujar esse estilo com algo de fora, ou inusitado, mas que faça algum sentido. Penso que é mais por aí. Criar coisas talvez envolva misturar mais elementos heterogêneos do que elementos homogêneos.

OP: Você falou de sua formação e caráter como ouvinte. Como foi o início? Como começou a formar sua discoteca e seu gosto? E como começou a discotecar em festas e casas noturnas?

DK: Acho que o início do meu interesse está ali nos compactos das minhas tias que ficavam na casa da minha avó. Tinha Love me do Michel Polnareff, Woman do Barrabás, Daydream do Wallace Collection, Aline do Christophe… Beatles, Elvis. E tinha música brasileira com o meu avô que tocava acordeão. Foi natural eu ter um interesse grande em ouvir música na rádio e querer comprar discos. Eu lembro o primeiro disco que eu comprei com meu próprio dinheiro foi uma coletânea chamada Video Hits, em 1982. Eu tinha 9 anos. Curioso que só depois de um tempo percebi que eu acabei colecionando também todos os singles de todas as músicas dessa coletânea. Prince, Michael Jackson, Marvin Gaye. Não tinha como. Tudo me interessava. Rock, punk, hip-hop, dark wave, jazz, música de antes, de agora. E até hoje é assim. Ao mesmo tempo que estou ouvindo coisas novas estou ouvindo coisas antigas que não conhecia ou que sempre quis conhecer.

Minha primeira discotecagem foi com fitas cassete mais ou menos preparadas no aniversário de 15 anos da minha prima Fabiana. Mas eu já ficava mexendo nos toca-discos e fuçando desde que assisti Beat Street – um dos primeiros filmes com a temática do hip-hop – no extinto Cine Metrópole, que ficava na rua da Bahia, em Belo Horizonte. Nada como uma história pra nos jogar em um imaginário. Depois disso foram festinhas aqui e ali. Amizades feitas em torno dos discos e do universo dos DJs. Tudo isso foi caminhando. Acho que a minha primeira discotecagem mais profissional, digamos, foi numa série de festas, entre elas a Boato, que acontecia em lugares improvisados no Barro Preto, em Belo Horizonte. Nessa época também eu fazia discotecagens com um amigo de faculdade. Usávamos o nome caricato de irmãos brothers. Isso foi em 1995, creio.

Leia também:  Sexo e confinamento

OP: O que você tocava na Boato?

DK: A variedade dos sons de festa na época. Hip-hop, música eletrônica, James Brown, algo de rock. Rolava muito os sons da época tipo Beastie Boys, Public Enemy, Chemical Brothers. Muito funk de James Brown. E muita coisa underground também, sons das cenas Jungle e Drum’n’bass, Techno, como UK Apache & Shure FX, Goldie, LFO. Uma pista de dança pode ser uma história né? É legal ir seguindo passo a passo naquilo que agrada, que você gosta e que cria um fluxo. Mesmo que em alguns momentos o barato seja quebrar o fluxo. É preciso ter cuidado e coragem nesses momentos.

OP: Você e o DJ Klang promoveram umas festas em uma casa de strip-tease. De onde surgiu a ideia?

DK: Na verdade eu e Fabia. Hoje minha esposa. Na época eu tinha esse lance com o DJ Klang de levar a guitarra pras discotecagens. E ficar tocando em cima de instrumentais. A ideia surgiu procurando lugares para fazer uma festa maior. Na época em BH só havia A Obra – que era nossa casa, e ainda é até hoje. Mas A Obra era menor e não podíamos colocar um sistema de som maior lá. Aí achamos essa boate de strip-tease no baixo centro da cidade. Logo tivemos a ideia de fazer a festa com shows de strip-tease no meio. Foi uma confusão! Mas todo mundo adorou. Principalmente as meninas, visto que muitas nunca haviam entrado num ambiente daqueles. O ambiente estava elétrico. Sentia-se no ar. Festa memorável.

OP: Às vezes o estilo musical constitui a identidade de determinados grupos urbanos e até políticos. Foi assim com a Nueva Canción chilena, determinados setores da MPB, do Punk Rock, do Ska etc. Misturar vários estilos não gera uma crise de identidade em você, como DJ?

DK: Em mim, de maneira nenhuma. Pode gerar confusão com o público, se você estiver discotecando para um público que de dia vai ao shopping center e de noite vai ao bar de “roquenrrou”. Todos os estilos se comunicam. O purismo não teve lugar depois dos movimentos contraculturais de década de 60. Por isso é que todo purista passou a ser aquele cara que pende para o conservadorismo. Não existe estilo de música ruim. Pode existir música ruim ou mal feita dentro de todos os estilos ou gêneros. Mas estilo ruim não existe porque todo estilo é uma expressão cultura legítima, inserido num lugar, num tempo, num povo.

OP: Algumas tribos de música eletrônica são bastante fechadas em estilos. No final da década de 1990, por exemplo, lembro-me que um fã de techno não frequentava festas de jungle etc. Isso ainda existe hoje? Você acha que esse fundamentalismo musical, por assim dizer, sempre tem um viés conservador?

DK: Aí eu acho que é mais uma lógica de gangues, de território, de grupos. Como você disse, tribos urbanas. São as pessoas abraçando bandeiras de pertencimento, grupos. Não acho que isso seja propriamente conservadorismo. O conservador, hoje, é um purista de meia-tigela. Ele gosta do que ele chama de “roquenrrou” mas despreza o funk carioca por que é chulo, imoral, vulgar etc. E às vezes até com tom racista mesmo, “música de pobre”, “de preto” etc. Mas esse purista do rock, que ele acha chique e “diferenciado”, não sabe que quando o rock aparece nos Estados Unidos, na década de 1950, era chamado igualmente de “música vulgar”, “imoral”, “de baixa qualidade” etc. Enfim, o conservador que não ocupa propriamente o lugar do aristocrata – é apenas uma coisa pequeno-burguesa mal informada mesmo. O natural, com o amadurecimento do gosto, é que a tribo urbana do gosto musical se dissipe. Afinal, não existe gosto. Todo gosto é aprendizado. Inclusive o gosto do paladar, da comida, é a mesma coisa.

OP: A pista e essas tribos, por outro lado, acabam cobrando um determinado tipo de desempenho do próprio DJ, não é? Me lembro do Bruno Veloso, DJ Blip, falando do “alívio” que sentiu ao entrar numa loja de discos pela primeira vez depois que parou de discotecar… Em que medida sua atividade como DJ moldou seu gosto ao longo desses 25 anos de atividade?

DK: É uma pergunta curiosa. Talvez alguma música que eu gostasse mais ou menos, e não me importava de tocá-la na pista de dança, eu tenha passado a gostar mais. Mas eu não creio que eu tenha passado a ouvir mais músicas dançantes ou festeiras por causa de ser DJ. Acho que até o contrário. Mas isso é muito pessoal. Acho que tem mais a ver com a formação musical de cada pessoa mesmo. E é essa formação que já define algo em mim que nunca vai me permitir chegar e querer dar uma de David Gueta. Muito embora eu admire vários DJs “funcionais”. Mas não admiro nada em especial no David Gueta (risos).

Leia também:  A poesia como gênero da liberdade

OP: Que DJs você admira hoje? E por quê?

DK: Eu não sei. Sem nenhum sarcasmo. Eu não costumo ouvir muitos DJs. Ou os mixes que eles gravam. Eu gosto muito de vários DJs: Kenny “Dope”, Rupture ou Nuts. Mas eu realmente não ouço muito DJs. Fora as coisas técnicas, que aparecem via DJs ou gente aleatória, não há muita coisa que um DJ faça que eu queira fazer. Eu quero construir minhas próprias ligações entre as músicas. E com a idade e 3 filhos, o tempo é curto. Se eu ouvir os DJs, não ouço música. Talvez eu devesse ouvir mais DJs (risos). Estou mal informado, pouco qualificado pra nomear um DJ legal hoje. Mas eu diria que gosto de um cara de Detroit que se chama Omar-S – tanto das discotecagens dele quanto de sua produção musical.

OP: E que músicos contemporâneos você tem ouvido?

DK: Omar-S, Actress, Madlib e afiliados como Freddie Gibbs, Flying Lotus, Kendrick Lamar, Solange – irmã de Beyoncé –, Kiko Dinucci… É o que me ocorre agora…

OP: Você mencionou que quer construir suas próprias ligações entre as músicas. Que ligações você constrói entre as músicas desses artistas?

DK: Todos são artistas que sabem explorar a desconstrução que houve no formato banda. Mas as ligações que eu faria com as músicas deles numa mixagem de pista de dança ainda não sei…

OP: Em que medida eles desconstroem o formato de banda?

DK: Omar-S trabalha com sintetizadores e sequenciadores, como é usual na música eletrônica. Flying Lotus também, levando isso um pouco adiante. Madlib é um pesquisador musical sampleador que produz muito no hip-hop e adjacências. Kiko Dinucci é um música cujo último album é só de violão. Mas ele explora o violão de maneiras diversas. O comum em desconstruir o formato banda talvez seja uma premissa para quem quer evoluir no que é apresentado musicalmente. Você não pode acreditar em alguém que queira te apresentar Jazz e montar um combo como era na década de 1950. Embora seja o que a maioria das pessoas que vão a um show de Jazz esperem ver e ouvir. Mas o equivalente atual à inovação do Jazz está sendo feito hoje em outros formatos. Os formatos são importantes. Eles são o ferramental para se criar coisas. E um ferramental novo é importante para sugerir novos caminhos.

OP: Estamos falando em desconstrução e construção, em formatos antigos e novos caminhos. A música, por ser fundamentalmente social, está intimamente ligada ao desenvolvimento dos grupos e sociedades em que ela mesma se desenvolve. Em tempos de negação da ciência, ascensão do nazismo, pandemia, você tem visto riqueza no universo musical que nos permita ser otimistas?

DK: Eu não sei se vejo uma ruptura sendo proposta pela música assim como aconteceu nos movimentos sociais pacifistas e pelos direitos civis da década de 1960. Talvez eu veja um movimento de geração de novas estéticas como havia nas duas primeiras décadas do século 20. Muito complicado estar aqui agora e apontar sem distanciamento do tempo. Eu vejo o desenvolvimento musical como algo sempre crescente. Mas não vejo retrocessos.

Esse solavanco reacionário pelo qual passamos talvez seja uma última aflição, um último desespero em forma de convulsão, perante ao fato de que a China será a nova maior potência mundial e de que o mundo talvez não seja mais tão referenciado no ocidente. Como isso vai se refletir na música e na produção cultural como um todo, estamos vendo agora, embora não saibamos bem definir. O K-Pop é basicamente um reflexo do pop ocidental dos anos 90 – só um pensamento jogado aqui.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

Deixe uma resposta