Como era viver na União Soviética? Parte 1

Um vislumbre sobre o cotidiano que surgiu depois da revolução russa de 1917, abolindo a propriedade privada dos meios de produção e colocando o povo como prioridade

Imagem: Lyudmila2509
por Alexandre Flach

O texto abaixo é a sexta parte da série Fogo e revolta nas ruas: para onde vai a luta popular?

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

Nos últimos textos desta série, “Fogo e revolta nas ruas: para onde vai a luta popular?”, a conversa seguiu as bandeiras vermelhas dos teimosos bolcheviques russos, obstinados em colocar um fim no capitalismo, na marra. Vimos que a balbúrdia dos russos deu um alerta na burguesia mundial: se não dessem algum direito para o povão, logo logo a peãozada do planeta inteiro iria querer um Lênin para chamar de seu.

E para não deixar dúvidas, vimos também que os bolcheviques espalharam partidos revolucionários por todos os lados, “contaminando” de socialismo gente da Ásia, África, América e Europa. Era cada vez mais gente dizendo: “eleição só não resolve, queremos revolução”!

A bem da verdade, não era lá muito marxista essa ideia de encerrar o capitalismo por decreto, na base da porrada. A noção bolchevique de revolução afastava-se das bases marxistas ao tentar impor uma infraestrutura econômica a partir de uma superestrutura ideológica e política. Era uma revolução que não vinha acompanhada de sua principal substância: a superprodução capitalista.

Veremos mais adiante que esta falha – que aproximava o chamado “socialismo real”, em verdade, de um socialismo utópico – cobraria o seu preço durante todo o período soviético.

Mas será que ainda assim valia a tese de que “o pior dos regimes socialistas é melhor do que o melhor dos regimes capitalistas”? Ou nós vamos ter que concordar com a propaganda de Hitler e Goebbels que inventaram aquela besteirada toda de Holodomor, uma grande fome feita de propósito só para matar um monte de gente? Ou, para ser menos burrinho um pouco, vamos nos contentar com a vaga ideia de “totalitarismo” que a grande democracia norte-americana, terra da absoluta liberdade e oportunidade, cuidadosamente plantou nas nossas cabecinhas colonizadas, através das escolas, imprensa, músicas, filmes, gibis, Disney e intelectuais “do bem”?

Já se vê que não tem como seguir em frente nesta conversa sobre os rumos da luta popular sem antes tentar garimpar informações o mais próximo da realidade possível sobre a União Soviética, mesmo no meio de tanta lama de propaganda de ambos os lados dessa guerra. Precisamos mergulhar na vida soviética real, no seu dia-a-dia, nas suas instituições, no seu trabalho. Precisamos sentir um pouco do que foi a vida das pessoas de carne e osso que viveram o sonho bolchevique, para tentar entender para onde de fato nos levou aquela mão certeira avante, com que Vladimir Ilyich Ulianov, nosso querido Lênin, incendiava multidões.

Imagem: Lyudmila2509

Lembranças da União Soviética

“Tinha gente revirando lixo para achar o que comer, um monte de desempregados, famílias inteiras passando frio e fome nas ruas. E era uma ditadura: a polícia vigiava a gente o tempo todo e do nada aparecia até helicóptero para ‘atirar na cabecinha’ do povo…”

OPS! País errado!

– UNIÃO SOVIÉTICA, CACETE!

Foi mal, Partisanos. Agora sim, União Soviética: vamos lá!

Dasha é uma russa que mora no Brasil há alguns anos e compartilha seu cotidiano com o marido e filhos brasileiros, impressões culturais e lembranças de sua terra natal no canal “Wally e Dasha – Pensando Alto”, no Youtube.

Ela tinha seis anos quando a URSS terminou, mas ainda assim lembra muita coisa interessante exatamente sobre o que queremos saber: “Como era durante a União Soviética?

“As coisas eram mais simples, tudo era limpo, maravilhoso… Realmente, essas são minhas lembranças, eu não tô mentindo. Mas assim, tudo bem o básico, sabe? E o sorvete era incrível. Aliás, comida industrializada da União Soviética tinha altíssima qualidade. (…) Existia um padrão para fazer comida. Por exemplo, sorvete ou chocolate, todo o país inteiro tinha um padrão para fazer: tinha que ter tanto de leite, desta qualidade, tanto de açúcar, tanto de manteiga. Então, o país inteiro, todas as fábricas, faziam com a mesma receita. (…) E se uma fábrica por exemplo, desenvolvesse outra receita, tinha que aprovar com o governo e criar também este padrão… O sorvete era de uma qualidade incrível. Eu lembro muito bem a entrevista do Elton John, que conheceu a União Soviética, aí depois voltou nos anos dois mil ou dois mil e pouco. E quando perguntaram para ele “o que você achou? o que mudou?”, e ele falou: “Ah… o chocolate virou de péssima qualidade”.

Vendedor da Eskimo. A Plombir também disputavam a preferência nacional, mas todas as fábricas só podiam usar ingredientes naturais, o que dava o sabor encorpado aos sorvetes soviéticos. Imagem: Arquivo Municipal de Trondheim, retirada do site “Russia Beyond”

Quem clicar lá no vídeo vai se assustar com o português perfeito dela. Dá até para desconfiar se não é brasileira. Mas não, Dasha postou outro vídeo falando um russo nativo “raiz” com os seus pais. E perguntou: “como era morar na União Soviética?”

Leia também:  A namoradinha de Hitler que conquistou suas 72 horas de fama

Com receio dos fascistontos e morenonazis brasileiros, o marido entra na jogada e inicia o vídeo com aquele avisinho legal, de praxe: “Escutem com carinho porque é um vídeo sobre a memória deles. Este canal não é um canal de política. A gente vai mostrar a experiência de duas pessoas que tiveram uma vida super bacana e que estão compartilhando de coração aberto com a gente”. Bom, Wally, para nós está maravilhoso. É exatamente o que a gente quer, certo?

Seguem os russos, entre um gole de vinho e outro (que para eles é igual suquinho):
– As pessoas imaginam aqueles tempos de vários jeitos…
– Mas varia mesmo, interrompe o pai. (risos)
– Há pessoas que imaginam aqueles tempos como opressão e ditadura, e outras imaginam como ordem e igualdade…
– Nós morávamos na melhor fase da União Soviética, diz o pai. Quando precisamos colocar você na escolinha, colocamos de graça na melhor escolinha, onde tinha piscina, alimentação, médicos. E lá era 24 horas. Se precisássemos, poderíamos deixar a criança durante a semana, e durante a noite também.”
– Sem preocupação alguma, completa a mãe. Eu posso falar que existia ilusão de planejamento. Ilusão de planejamento. Estou planejando casar com 20 anos, estou planejando ter um filho e uma filha… Por que menino e menina? Porque se os filhos são de sexo oposto, você receberia um apartamento de três quartos, e se fosse do mesmos sexo, receberia um apartamento de dois quartos.
Dasha pergunta: Vocês eram confiantes quanto ao dia de amanhã?
– 100%, com certeza, diz sua mãe.
– Era até chato, diz o pai. Você nasceu e já sabia como seria a sua vida. (risos)

Veja lá o vídeo completo e comente depois por aqui. Mas nós seguimos em frente, porque nem só de sorvete e chocolate era feita a vida da criança soviética.

Você gostaria de ter sido criança na União Soviética?

O blog “Guia de pesquisas históricas dos alunos da Universidade de Boston” apresenta vários livros e estudos acerca da infância na União Soviética. As diversas pesquisas são praticamente unânimes: a sociedade soviética alimentava um verdadeiro “culto à infância”.

Leia também:  DJ Kowalsky: “Não existe estilo de música ruim”

A ideia básica na URSS era que para a Revolução Marxista internacional ter sucesso, a criança e o jovem têm que ser bem tratados e educados politicamente. O Estado Soviético e o Partido Comunista criaram diversas organizações para crianças e jovens como incentivo para participar da vida política soviética. Havia os Pequenos Outubristas, os Pioneiros, e o Komsomol. Este último já era um organismo oficial, que funcionava dentro do Estado Popular Soviético, era um verdadeiro partido comunista jovem, cujos membros tinham direito de votar e serem votados nos sovietes e outros órgãos do Estado Soviético, além de diversas obrigações perante a sociedade.

Sem uma burguesia para dar papinha, o Estado Soviético podia cuidar pra valer das crianças. Imagem: reprodução

A educação era considerada acima de tudo um treinamento para a vida em sociedade. Uma vida política e socialista. Desde Lênin, crianças e jovens eram uma das mais importantes prioridades revolucionárias: “Precisamos daquela geração de jovens que começou a atingir a maturidade política em meio a uma luta disciplinada e desesperada contra a burguesia. Nessa luta, essa geração está treinando comunistas genuínos; deve subordinar-se a essa luta e vincular-se a ela a cada etapa de seus estudos, educação e treinamento ”. (Tarefas das ligas juvenis – Moralidade burguesa e comunista.)

Havia ideologia na educação soviética? Como em qualquer outra que possa existir no planeta, é claro que sim! Do mesmo modo que as escolas dos países capitalistas já são um esquema de treinamento para sermos dóceis com os patrões e com a burguesia, nos preparando para o “mercado de trabalho”, as escolas soviéticas treinavam as suas crianças a viverem os laços de camaradagem e preocupação social que estão na base da ideologia socialista.

Veja como era essa gradual integração do jovem à vida política da União Soviética, nas palavras de Elena Revínskaia, do site Russia Beyond:

“A partir da 1ª série, as crianças recebiam o título de “oktiabrionok”, isto é, “criança do Outubro Vermelho”. Ganhávamos um broche em formato de estrela, com uma imagem de Lênin bebê. Não nos ligávamos muito nisso. Quando chegava a hora de ser aceito para “Pioneiros” – o próximo passo para se tornar um comunista – era muito importante. Até o final da 3ª série, éramos avaliados quanto à nossa qualificação para nos tornarmos pioneiros. As crianças mais velhas e professores verificavam as notas, comportamento, conquistas e assim por diante. O evento de recepção dos novos pioneiros era grandioso e emocionante. Os pioneiros amarravam um tipo de bandana vermelha no pescoço e, a partir de então, se tornavam jovens membros responsáveis do Partido Comunista.”

Receber o lenço vermelho e se tornar um Pioneiro era uma grande honra para as crianças soviéticas. Imagem: V.Kozhevnikov/TASS – do site Russia Beyond

Vejam as (não tão) sutis diferenças: a avaliação para tornarem-se pioneiros, não era feita apenas pelos professores, mas também pelas crianças “mais velhas”. Além disto, os pioneiros não eram apenas um clubinho privado, como são os escoteiros. Eram a porta de entrada para o poderoso Estado Soviético, aberta a qualquer jovem que se interessasse e se esforçasse em trabalhar pelo seu povo. Uma marca ideológica inconfundível de um Estado Operário.

As crianças eram ensinadas a cuidar da natureza. Uma das principais atividades dos pioneiros era coletar papel usado para reciclagem. A brincadeira que eles gostavam era de “enfermeiros, curando árvores”:

Carregávamos a malinha da Cruz Vermelha com suprimentos médicos: ataduras, tesoura, algodão, antisséptico e íamos totalmente preparados para o projeto de “curar as árvores”. Ao encontrar galhos quebrados, caules cortados e arbustos tortos, aplicávamos um pouco de antisséptico e colocávamos curativos. Era uma sensação e desenvolvíamos a noção de cuidado.

Mas se em lugar nenhum do mundo vida de criança é só uniforme e disciplina, imagina uma criança russa!

Leia também:  MEMEVID-2020 e a cura do Corona

Anna Sorôkina, conta:

“o pátio era o oásis de toda criança soviética. Pequenos e acolhedores, os pátios entre os blocos de prédios eram um universo completo para a maioria das crianças urbanas nos tempos soviéticos e na Rússia da década de 1990. Ali, muito antes do surgimento das redes sociais e do mundo virtual, as crianças faziam amigos, brincavam, brigavam e ficavam de manhã até a noite – ou até que suas mães berrassem para elas entrarem em casa. Crianças de Kaliningrado a Vladivostok brincavam de jogos quase idênticos e, apesar das enormes distâncias, compartilhavam os mesmos sonhos de infância.”

Brincavam de alassiki (amarelinha), Cossacos e bandidos, rezinotchki (elástico), vichivali (queimada) e voinuchka, uma guerrinha contra as crianças do pátio vizinho, com soldados, generais, espiões e até “criptógrafos”, seja lá qual for o código que eles inventavam para se comunicar.

“Todos se conheciam nos pátios. As crianças brincavam, os adultos namoravam, os idosos sentavam-se nos bancos e falavam sobre os adolescentes.” Imagem: Sergei Lidov/Sputnik

Mas como tudo na vida, havia problemas. Duas guerras mundiais, revolução, guerra civil e consequentes períodos de carestia e fome deixam suas marcas: crianças de rua. No início da década de 1920, a URSS chegou a ter mais de 6 milhões de crianças morando nas ruas das grandes cidades soviéticas.

Crianças mais embrutecidas pela vida nas ruas cometiam crimes e resistiam a viver em abrigos ou orfanatos. Imagem: Serguêi Korchunov/МАММ/russiainphoto.ru

A diferença é que o Estado investia pesado na solução deste problema:

O governo soviético gastou quantias enormes para construir orfanatos e jardins de infância, além de centros de artesanato que mantinham as crianças de rua ocupadas com trabalho. Diversas instituições públicas focaram na socialização dos órfãos e das crianças de rua e faziam diversas checagens para monitorar como as crianças adotadas estavam se adaptando à vida em família e, se possível, evitar fugas das novas casas.

As crianças mais dóceis, recebiam educação e trabalho em abrigos ou orfanatos, e muitas eram adotadas. O governo incentivava as famílias a adotarem crianças de rua, inclusive pagando pelas despesas.

Uma das principais atividades dos pioneiros era ajudar na reintegração das crianças de rua à sociedade. Imagem: Borís Ignatovitch/МАММ/russiainphoto.ru

Com todo este esforço, após a segunda guerra a União Soviética conseguiu vencer este desafio. Até que a restauração do capitalismo, nos anos 90, trouxe as crianças russas novamente para as ruas… Mas aí já é outra história.

E tem mesmo muita história pela frente!

A União Soviética simplesmente não cabe em um único artigo, caros amigos Partisanos. Ainda temos muito o que falar sobre esta incrível experiência de mais de 22 milhões de quilômetros quadrados, ao longo de sessenta e nove anos de vida, sem burguesia pra encher o saco.

E para você poder sentir pra valer um pouquinho do que foi ser um cidadão soviético vamos trazer aqui a vida das mulheres, dos gays, a contracultura soviética (sim, tinha hippie e punk por lá também), vamos mostrar como era o Estado Popular Soviético, quem podia votar, se existiam eleições, quais eram os direitos do povo… etc etc… Tem muita coisa pela frente ainda.

Achamos até os Partisanos Soviéticos! Uma ótima história que seguiu os passos do lendário Exército Vermelho, na vitória contra Hitler.

Segue a vida, Partisano! E com ela, virão os novos capítulos desta série.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

Este slideshow necessita de JavaScript.

Deixe uma resposta