CBGB: o bar de Nova Iorque que foi o berço do punk

O bar inteiro fedia a banheiro sujo e o público era uma mistura de artistas, prostitutas e rockeiros de todo tipo, com músicos bem diferentes uns dos outros se revezando no palco

Imagem: Punk Magazine
por Ivan Conterno

O texto abaixo é a segunda parte da série “Grito de ódio: uma breve história do punk“.

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Segundo William Burroughs, o famoso poeta beat, punk era “alguém que dava o rabo”. Como vimos na semana passada, o termo punk não se originou de um movimento; era apenas um xingamento que aos poucos serviu para descrever uma série de grupos de rock’n’roll marginalizados pela mídia convencional. Todas as bandas descritas na primeira parte desta série em algum momento receberam esse palavrão e logo ele começou a se tornar corriqueiro na crítica musical. No começo dos anos 70, a imprensa começou a popularizar a palavra “punk”, sem nunca defini-la muito bem. Em 1974, a revista Creem elegeu Alice Cooper como o “punk do ano”, mas o termo só foi se cristalizar com um movimento musical novaiorquino totalmente caótico e original. 

O berço do punk rock

Terry Ork tinha se mudado da Califórnia para Nova Iorque em 1968 para trabalhar no estúdio de Andy Warhol, ajudando nos filmes e na revista Interview, mas foi demitido após ser acusado de vender cópias das telas coloridas do chefe no mercado negro. Depois disso, arrumou emprego numa livraria e foi lá que conheceu Richard Hell, que tinha uma banda chamada Neon Boys com Tom Verlaine. Os dois músicos tinham vindo para a cidade em 1972 depois de fugirem de um internato e serem presos acusados de um incêndio criminoso e de vandalismo. No mesmo ano, eles resolveram formar o grupo com mais um amigo de infância de Verlaine e gravaram um pequeno disco. Terry apresentou mais um integrante para a banda e tornou-se o empresário dos delinquentes, que logo mudaram o nome para Television.

Enquanto consertava o toldo do seu bar fuleiro, Hilly Kristal avistou três caras com calças e camisetas rasgadas – que depois descobriria ser da banda Television – questionando o que eram aquelas letras “CBGB OMFUG”. Era um bar capenga cheio de merda de cachorro no chão e com um palco de três metros quadrados. A sigla significava “country, blues, bluegrass e outros estilos para levantar viciados em música” (country, bluegrass, blues & other music for uplifting gormandizers). Ork falou que o grupo talvez pudesse tocar um pouco de cada coisa dessas, e, em abril de 1974, convenceu o dono da pocilga a deixar a banda tocar nos domingos.

Hell encontrou o que queria: um lugar onde não estivesse rolando nada e que, portanto, não tivesse nada a perder. Assim, a banda poderia se apresentar toda semana, como se fosse uma coisa fixa, criando um público. Hilly estava ganhando muitos clientes, embora achasse a música horrível e não entendesse nada. Patti Smith, uma cantora que já tinha tentado uma carreira performática em Paris, começou a frequentar o local, pegou Tom Verlaine e, logo em seguida, passou a se apresentar naquele chiqueiro também. A cena aumentava como uma bola de neve. Foi então que Terry resolveu trazer mais uma banda de caras estranhos para o bar: os Ramones.

Um nome para o que era evidente

Malcolm McLaren tinha acabado de assumir como empresário dos New York Dolls quando eles resolveram tocar a nova música Teenage News em um show. Nessa mesma noite e no mesmo local, Richard Hell tocou pela última vez com o Television. Um ex-estudante de artes desempregado chamado John Holmstrom estava lá e, tocado pela música, reviveu a vontade que tinha de criar uma publicação para adolescentes, ideia que o perseguia desde que tinha comprado o disco dos Dictators

Formados em 1972 por Andy Shernoff, que escrevia o jornaleco Teenage Wasteland Gazette, e sua gangue do Bronx, liderada pelo pugilista Handsome Dick Manitoba, os Dictators eram o grupo musical mais temido da cena alternativa que se formava. Inspirado na atitude insensata da banda e sua na despreocupação com o mundo, John Holmstrom jogou a ideia de publicar uma revista chamada Teenage News para dois amigos, que acharam o nome uma bosta, no que Legs McNeil sugeriu o nome Punk

Para McNeil, a revista deveria criar uma revolução cultural, um movimento em torno de cerveja, x-búrgueres, tirinhas, filmes B e aquele rock’n’roll esquisito dos Stooges, proclamando: “não somos hippies, somos punks!”. Ninguém falava sobre o que acontecia no CBGB e John queria cobrir isso com seus desenhos, fotos e um design maluco. Foram então à espelunca e notaram um cara esquisito sentado numa mesa e lançaram “ei, a gente vai entrevistar você pra nossa revista!”. Era Lou Reed, ex-Velvet Underground, que olhou com desdém, mas respondia os rapazes. Enquanto eles conversavam, os Ramones entraram no palco, contaram até quatro e, de repente, todo mundo ali foi jogado pra trás com o barulho.

Capa da primeira edição da revista Punk. Imagem: Punk Magazine

O primeiro número da revista saiu com Lou Reed na capa, ao mesmo tempo em que os Ramones viraram os caras mais adorados do CBGB, o que chamou a atenção de gente graúda como Andy Warhol, Malcolm McLaren e Danny Fields, que começaram a frequentar os shows. Danny ficou tão impressionado que se ofereceu para ser o empresário deles, no que eles exigiram pelo menos um adiantamento para comprar uma bateria nova. Danny pegou 3 mil dólares com a própria mãe e levou os quatro para a Sire Records, que os contratou imediatamente. 

O CBGB inteiro fedia a banheiro sujo e o público era uma mistura de artistas, prostitutas e rockeiros de todo tipo. O bar comportava uma experiência bastante excêntrica, com músicos bem diferentes uns dos outros se revezando. Em poucos meses, passaram a tocar por ali, entre outros, o Blondie, os Talking Heads, o Suicide, os Shirts, os Backstreet Boys (diferente da boy band dos anos 90, esses eram liderados pela carismática vocalista transgênero Wayne County), os Tuff Durts e os Heartbreakers, banda que contava com Johnny Thunders, ex-guitarrista dos New York Dolls, e Richard Hell, ex-baixista do Television.

Esses artistas também se apresentavam em outras casas, como o Max’s Kansas City, já consagrado pelas apresentações do Velvet Underground, onde Wayne County discutiu com o vocalista dos Dictators, que começou caçoando das suas roupas dizendo que ela era uma bicha. Foi aí que Wayne acertou o malandro com o pedestal do microfone e desceu para arregaçar a cara dele. Dick teve que ser levado pela ambulância e, como a conta do hospital ficou alta, resolveu processar Wayne. Foi feito então um show beneficente para arrecadar a grana para pagar a indenização pela porradaria e logo surgiu um certo boicote aos Dictators.

Dos Panteras Brancas à geração em branco

Em pouco tempo, várias bandas do interior do país começaram a viajar para Nova Iorque querendo tocar punk rock. Em 1976, quatro doidos de Cleveland conheceram os Ramones e pediram para tocar no CBGB como os Dead Boys. Stiv Bators, o vocalista, dizia que “em Nova Iorque estão na mesma que nós, não somos esquisitos lá, vamos ser normais lá!” Formaram a banda em uma semana com o singelo lema: “foda-se a arte, vamos agitar!” O niilismo da banda já contrastava demais com a pretensão artística de Patti Smith e do Television. Isso era sintomático e revelava que o espírito das coisas se transformava rapidamente. Os Dead Boys representavam um estereótipo punk mais consolidado e tudo o que veio antes ficaria conhecido como pré-punk. Não por acaso, o movimento já se espalhava para além do oceano nesse mesmo ano.

O convívio dos músicos punks no CBGB era intenso, rendendo algumas músicas compostas por membros de diferentes bandas, como Chinese Rocks, composta por Dee Dee, dos Ramones, e Richard Hell, mas gravada por Johnny Thunders sem os dois. Pelo mesmo motivo, anos mais tarde, Dee Dee, Stiv Bators e Thunders formariam uma banda em Paris. A revista Punk, reafirmando essa simbiose, costumava publicar fotonovelas com músicos das mais variadas bandas contracenando juntos.

O punk nasceu sem propósito político algum. Se os Panteras Brancas tinham sido ao menos “hippies lúmpens” engajados, como caracterizou o líder John Sinclair, a nova geração em Nova Iorque já rejeitava todo tipo de militância política, que era relacionada de alguma forma com os hippies. A revolta convergia para os roubos, os saques, as brigas e as drogas, que agora só se diferenciavam por ser sintéticas e menos alucinógenas. Quem se levasse a sério no CBGB seria alvo de deboche. Isso só mudaria a partir da explosão punk em 1977.

Foi nesse ambiente de descaso com tudo e com todos que Richard Hell formou um novo grupo, os Voidoids – que contava com Marc Bell (Marky Ramone) na bateria – e lançou a canção Blank Generation (geração em branco), que sintetizaria o que se passava na cabeça dos punks do CBGB. A ideia era, de certa forma, deixar que qualquer um preenchesse o sentido do refrão, que fundamentalmente não significava nada. O título da música foi emprestado para dois filmes distintos, um deles ficcional e contando com a participação de Andy Warhol e do próprio Richard Hell.

Richard Hell, que inaugurou o visual de cabelos curtos e levantados e de roupas rasgadas seguradas remendadas com alfinetes, que teve a ideia de tocar com o Television num bar isolado como o CBGB, que apresentou um ritmo simples e novo com os Heartbreakers e depois resumiu tudo com os Voidoids, inspirou Malcolm McLaren, que também presenciou outras bizarrices em Nova Iorque. Os jovens londrinos já estavam ouvindo as bandas extravagantes dos Estados Unidos e a crise atingia em cheio toda a população. Era um ambiente fértil para algo intenso. Foi assim que, quando voltou para Londres, o empresário decidiu investir numa banda punk que chocasse toda a sociedade, a fim de divulgar a loja de roupas de sua mulher, a boutique Sex.

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Continua na próxima semana…

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