Carnaval pós-pandemia: “E o mundo não se acabou…”

“A Espanhola está aí, a Espanhola está aí; A coisa não está brincadeira; Quem tiver medo de morrer; Não venha mais à Penha”

Imagem: Carmen e a "espanhola"
por Rafael Silva

O carnaval é a festa do povo brasileiro, cartão postal da cidade maravilhosa, uma celebração que transborda as vontades e frustrações da sociedade brasileira. Se essa é a realidade em tempos normais, o que esperar de um carnaval pós-pandemia? Vamos ter que esperar – ansiosamente – para ver, mas o Rio de Janeiro já viveu essa experiência certa vez no passado. A canção Gripe Espanhola foi o sucesso de um dos maiores carnavais de todos os tempos, onde as pessoas pareciam se vingar da dor sentida durante a pandemia da chamada “gripe espanhola”, que matou mais de 15 mil pessoas só no Rio de Janeiro.

Charge da Gazeta de Notícias mostra a chegada da gripe espanhola ao Brasil, setembro de 1918.

A doença chegou ao Brasil em setembro de 1918, num contexto de guerra mundial e grande devastação da Europa. O impacto foi sentido em especial no Rio de Janeiro, que mesmo sendo a capital do país, não tinha estrutura sanitária alguma para lidar com a pandemia. Nem a cachaça, nem os purgantes, nem todo tipo de receitas milagrosas foram eficazes contra a nova doença, e os leitos rapidamente se esgotaram nos hospitais. Um cenário de caos social se instaurou na cidade. Nelson Rodrigues, que tinha 6 anos na época, lembra da situação em uma de suas crônicas:

“Foi uma tragédia, amigos, uma tragédia. Houve na cidade uma enchente de caixões. Pergunto: Quem não morreu na espanhola?”

Capa da Gazeta de Notícias, outubro de 1918.

O Rio de Janeiro já possuía uma forte tradição cultural, em suas diversas facetas, na música, na boêmia, no estilo de vida do carioca. O início do século XX demarcou as origens do samba, numa mescla de tradições vindas do século anterior. Nesse contexto foi composta Gripe Espanhola, um maxixe de Caninha lançado em outubro de 1918, na tradicional Festa da Penha, onde era testada a popularidade das novas composições. Seu primeiro grande sucesso abriu espaço para integrar diversos grupos tradicionais do Rio, rivalizando com o compositor Sinhô nos concursos musicais da época.

“A Espanhola está aí, a Espanhola está aí; A coisa não está brincadeira; Quem tiver medo de morrer; Não venha mais à Penha”

O melhor carnaval de todos os tempos

Apesar da recomendação de Caninha, o carnaval chegou com tudo. Diversos blocos e bailes foram organizados, o comércio estava infestado de produtos de todo tipo. Máscaras, lança-perfume, miçangas, fantasias. Os jornais da época registraram inúmeras atividades carnavalescas. A euforia tomou conta das ruas, naquele que foi considerado o maior de todos os carnavais.

Num clima de pandemia e guerra mundial nunca visto antes, assolando o país de uma forma terrível, o carnaval cumpriu seu papel de canalizador do espírito genuinamente popular. Todos os medos e traumas foram “superados” em meio às festividades, ritmos e cores do primeiro carnaval pós-pandemia. Nelson, mais uma vez ele, sentenciou:

“A morte vingou-se, repito, no carnaval… e tudo explodiu no sábado de carnaval.”

 

 

3 comentários

  1. Muito bom o texto e explorção do contexto. Como o carnaval consegue superar, noa brasileiros, seus medos e traumas. Conseguimos minimizar a até a morte, isso desde o início do Brasil, aos dias de hoje.

  2. Boa recordação, de quando ainda era possível, dadas as condições, muatatis mutandis, era possível certo espaço de liberdade frente à gripe espanhola. Com o atual vírus Covid-19, a sua letalidade é menos permissiva. E sem dúvida menos espaço e condições para comemoração teremos, se houver por parte da população consciência de que: há hora para tudo, para chorar e parar rir … e esta não parece que é uma hora para rir, pois significará escolher entre rir ou sofrer e morrer … e não entre rir ou chorar apenas …

Deixe uma resposta