“Canta Canta, Minha Gente”, o melhor álbum de Martinho da Vila

Lançado em 1974, contagiante e brasileiro como nenhum outro, se fosse lançado hoje derrubaria das paradas de sucesso qualquer disco

Imagem: reprodução
por Eduardo Afonso para os Arquivos do Samba

“Canta Canta, Minha Gente”, lançado pela RCA Victor em 1974, não é só um ótimo álbum de samba. É um diamante cuidadosamente lapidado em forma de disco de vinil. Martinho da Vila já vinha de uma carreira de sucesso para lançar “Canta Canta”, e com esse álbum entraria de vez para a história brasileira como um dos maiores cantores e compositores do país.

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Já nas primeiras quatro faixas do álbum, compostas por ele, Martinho mostra a que veio. “Canta Canta, Minha Gente” descreve perfeitamente o povo brasileiro mais pobre: não importam as dificuldades, este brasileiro encontra sempre uma forma pra sorrir, uma forma pra continuar cantando, uma forma de se ter esperança. “Só não dá pra cantar mesmo é vendo o sol nascer quadrado”, anuncia Martinho em uma das frases da música, no que muitos afirmam ser uma cutucada no governo brasileiro, à época dominado pela ditadura militar que assombrava o país desde 1964 e começava, exatamente em 74, a ter seu declínio econômico. Emendada a esta música e quase que como um afago depois da explosão que é a faixa título, Martinho apresenta uma de suas mais sensuais músicas, a suave “Disritmia”, que conta um dos mais famosos refrões de Martinho: “Vem logo, vem curar teu nego que chegou de porre lá da boemia”. Em seguida, “Dente Por Dente”, um sambinha bastante gostoso de se ouvir, abre os caminhos para “Tribo dos Carajás”, música que seria usada como samba-enredo da Vila de Isabel daquele ano não fosse a censura dos militares. A faixa fala sobre a invasão dos europeus em terras brasileiras e o massacre que dizimou tribos inteiras. Os versos responsáveis pela censura são esses:

Estranhamente o homem branco chegou
Pra construir, pra progredir, pra desbravar
E o índio cantou
O seu canto de guerra
Não se escravizou
Mas está sumindo da face da Terra

A música “Malandrinha”, a quinta do álbum, volta ao romantismo e à suavidade de “Disritmia”. Composta por Freire Júnior, a belíssima música se tornaria uma das músicas lentas mais famosas na voz de Martinho.

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“Renascer das Cinzas” vem como um hino à Vila Isabel e nasce de uma história interessante. No ano anterior, 1973, a Vila Isabel fizera um desfile ruim e fora rebaixada à segunda divisão do carnaval carioca. O fato deixou os dirigentes da escola intrigados, e eles conseguiram articular com o governo carioca a estadia da Vila Isabel na primeira divisão, e em 1973 nenhuma escola fora rebaixada no Rio de Janeiro. O fato não agradou os moradores do bairro de Noel Rosa, e a Vila Isabel começou a sofrer para encher a quadra. Foi quando Martinho resolveu lançar esse samba, chamando o povo da Vila Isabel a renascer das cinzas, mostrando ao povo que o berço do samba é em Vila Isabel. Deu certo. Emocionados com a composição, os moradores de Vila Isabel voltaram a lotar a quadra da escola.

Nas músicas seguintes, Martinho viaja pela música popular brasileira. Canta Pixinguinha, Donga e João da Baiana em “Patrão, Prenda Seu Gado”, trazendo o que dizia ser a Trindade da música popular brasileira. A música tem ares de maxixe, e com a nova roupagem de Martinho, ganha também um ar caipira, trocando o cavaco pelo banjo, o violão fazendo bordões, trazendo o prato e a faca, uma banda de coreto que aparece no meio da faixa. “Nego, Vem Cantar”, trás o jeito Martinho de se letrar músicas. Não se preocupando com métrica, os versos de Martinho podem variar de tamanho, complexidade e prosódia de frase para frase. A música é instrumentalmente executada como se contasse uma história – o cavaco imita uma viola no começo, a entrada da voz é acompanhada pelo triângulo; e quando Martinho imagina uma sociedade onde brancos e negros são o mesmo, é acompanhado por uma orquestra de cordas. A música também apresenta uma das características mais interessantes do samba, sua resistência e conscientização, trazendo frases como “E cante um samba na universidade / E verá que seu filho será príncipe de verdade”. Em “Calango Vascaíno”, música seguinte, Martinho mantém o espírito caipira e fala sobre seu time do coração, o Vasco da Gama. A estrutura do arranjo lembra a catira, dança tradicional brasileira na qual os passos do dançador são executados durante as intervenções instrumentais entre os versos, como também é feito no samba de roda do recôncavo.

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A próxima faixa, “Visgo de Jaca”, composta por Sérgio Cabral e Rildo Hora, conta com uma nova roupagem ao samba que nascia nas periferias brasileiras, o samba-rock. A música tem belos arranjos de sopro, e o violão de sete de Rosinha de Valença (que aparece em diversas outras faixas do álbum) merece destaque especial nesta faixa, pois soa como uma guitarra elétrica de rock. “Viajando”, música seguinte, é considerada por muitos a melhor faixa do álbum por sua sofisticação melódica. O disco finaliza com “Festa de Umbanda”, levando o ouvinte para dentro de um terreiro de Umbanda, com um pot-pourri de batuques e cantos espirituais que louvam Nanã, Ogum e os Exus, e mostram de onde veio toda a musicalidade expressada por Martinho no álbum: da África, raiz do samba. O verso final, “Saia caboclo / Não me atrapalha / Saia do meio / Da samambaia” acompanhado de empolgante batucada, faria qualquer evangélico sair por aí estalando os dedos, rodopiando sem parar.

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“Canta Canta, Minha Gente” foi lançado em 1974 e, fosse lançado hoje, derrubaria das paradas de sucesso qualquer álbum. Contagiante, brasileiro como nenhum outro, “Canta Canta” é considerado o melhor álbum de Martinho em quase todos os sentidos: em letras, em composições, em arranjos e em execução. Não bastasse tudo isso, o álbum é também sucesso de vendas, sendo o primeiro álbum depois de vários anos seguidos a ultrapassar os álbuns de Roberto Carlos em vendagem.

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