Bolsonaro despreza o cinema nacional. Será que nós também?

O sistemático desmonte do setor explica muita coisa, mas nem sempre estamos dispostos a sair de casa para ver um filme nacional — e nem sempre encontraremos coisa que preste em cartaz

"Terra em transe", do diretor Glauber Rocha. Imagem: Difilm/divulgação
por Henrique Nunes

Pense rápido: quantos filmes nacionais você viu nos últimos anos? Pois é. Foram poucos, eu sei. Bacurau você viu, né? Ufa. Ao menos este. Mas e Vida Invisível? Pacarrete? Sertânia? Provavelmente você nem sequer ouviu falar. E a culpa não é só sua.

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O cinema nacional caminha de joelhos para o precipício e não há dúvidas de que o maior responsável atende pelo nome de Jair Messias Bolsonaro. Os fatos são alarmantes: começa com o fechamento do Ministério da Cultura, passa por citações nazistas, ataques a artistas, servidores, instituições, e culmina no sucateamento causado por sucessivos cortes de orçamento. Portanto, qualquer que seja a linha de pesquisa, a resposta ao desastre em curso sempre nos levará à figura do genocida e seus capachos.

A pandemia, sejamos justos, contribuiu para afundar de vez o setor, mas não responde sozinha pela maior crise de todos os tempos. Bolsonaro é o maior culpado, mas não o único. O cinema nacional vem sendo desmontado desde o golpe de 2016. O que o fracassado presidente fez foi (tentar) jogar a pá de cal no túmulo e tirar de cena todos aqueles que considera seus inimigos.

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Acontece que, para além do completo abandono, o cinema brasileiro sempre sofreu com o desprezo dos próprios…brasileiros. A provocação feita no início deste texto é para deixar claro que, apesar dos pesares, nosso cinema tem trajetória irregular e, de tempos em tempos, padece de agudas crises de identidade.

Não há dúvidas de que temos no catálogo obras autorais brilhantes, muitas delas premiadas em importantes festivais. É inegável também que estamos testemunhando o nascimento de uma nova geração de cineastas talentosos e com futuro promissor. Por fim, a aposta de produtores em roteiros de gêneros como terror, aventura e até ficção científica tem ampliado a possibilidade de atrair mais e mais pessoas às salas de cinema — ou ao menos para que assistam às produções nacionais dentro de casa.

O problema é que todas essas produções continuam esparsas, esporádicas e aleatórias diante do domínio de enlatados gringos. “Ah, mas isso acontece com qualquer país e não só com o Brasil”. Sim e não. Se de um lado o império hollywoodiano quase não deixa espaço para produções de qualquer outro país, o cinema brasileiro não consegue se manter de pé nem com a chamada cota de tela — lei que obriga empresas como Cinemark e afins a destinarem espaço obrigatório a exibição de obras nacionais.

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É aí que surge outro problema.  Quando um filme entra em cartaz, passa a depender essencialmente da bilheteria da primeira semana para seguir disponível nas semanas seguintes – o pleiteante ao Oscar Deserto Particular deve ter ficado 15 dias no Cine Augusta .  Ou seja, se a gente não for ver, eles ficarão cada vez mais raros e a tendência é só haver espaço para as comédias globais de sempre  como Minha Mãe é Uma Peça 3, o filme brasileiro mais visto da história.

Agora faço outra provocação: o nosso cinema merece a nossa audiência? Responderei por mim: nem sempre. Mesmo com tantas qualidades e cada vez mais apostando na diversidade, os filmes feitos por aqui ou são ultra comerciais ou soberbos, feito para poucos. Acho um saco essa pecha de filme de arte que muitas obras nacionais passam a carregar. No fundo, não são nem comerciais nem de arte.

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Espero que os jovens autores (ou até mesmo alguns dos consagrados) passem a investir em roteiros mais pops, que ofereçam entretenimentos de qualidade e não mais esse monte de mensagem-sobre-dor-e-desespero-e-um-monte-de-história-complexa-com-cara-de-filme-acadêmico.

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Por enquanto, o raio do sucesso de crítica e público só tem caído a cada, vá lá, 10 anos. Qual será o nosso próximo Cidade de Deus? Quem terá talento suficiente para acabar com o império de Bacurau?

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