Batismo de Sangue: um encontro entre o sonho e a morte

A imagem mais instigante do livro é o encontro entre estudantes e torturadores vestidos de militares em ambientes subterrâneos, como o porão do DOPS

Imagem: Hatsaniuk
por Emílio Pio

Batismo de Sangue é um livro escrito pelo frade dominicano Frei Betto, publicado em 1983, final da ditadura militar. Narra a história da guerrilha urbana sob a ótica dos Frades Dominicanos. Na narrativa encontramos figuras como Carlos Marighella, um personagem histórico, que pode ser visto como herói ou terrorista. Para os adoradores da ditadura, Marighella foi um criminoso, para os comunistas, um herói.

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E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome” – Liberdade, Carlos Marighella.

Marighella é personagem central do Batismo de Sangue, mesmo não sendo responsável por tecer as linhas das narrativas. Assim como uma explosão, Marighella inicia a guerrilha urbana e começa a recrutar pessoas dentro e fora do Brasil. Cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro se tornam o palco do confronto entre estudantes e militares, assim como cão e gato.

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Entre um confronto e outro, a imagem mais instigante do livro é o encontro entre estudantes e torturadores vestidos de militares que acontece em ambientes subterrâneos, como o porão do DOPS.

“Nada mais perturbador para um policial que o olhar altivo de um preso. Parece-lhe excessivamente ousado que um homem despojado de qualquer parcela de poder, desarmado, privado de liberdade, possa olhá-lo de frente e calar-se. Uma reação instintiva, animalesca, exige que o inquisidor quebre esse espelho que lhe exibe a própria covardia.”

Os militares, homens, pais de família, lá encontram um ambiente perfeito para a diversão sádica, e a vítima perfeita, os estudantes. Não falta imaginação quando o assunto é tortura, ratos na vagina, pau de arara, choques.

“Misteriosa a natureza humana! O homem que se deliciava em maltratar mulheres, pelo perverso prazer de vê-las nuas, gemendo indefesas em suas mãos, agora ajudava a esposa a servir o café e brincava com o filho menor no colo. O poder é capaz de dividir assim as pessoas? Deus e o diabo disputam um mesmo ser?”

Martírio é uma boa palavra para cada morte de estudante no porão do DOPS. Uma utopia construída com sangue e ferro, com fogo. Lá, diante da morte, do sofrimento, Frei Betto disse ter encontrado os mistérios da vida.

“A fé desmascara, frente á palavra de Deus, o discurso ideológico dos dominadores, Jesus assume a identidade dos oprimidos e neles quer ser amado e servido: ‘tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me’ (Mateus 25, 35-36) . Servir à causa de libertação dos pobres é servir a Cristo.”

Quem constrói a utopia caminha pelo labirinto do invisível, pelos mistérios, pelas encruzilhadas. É talvez um encontro. A juventude tem esse papel importante de lutar contra a estrutura consolidada. A juventude como motor das utopias. Talvez o sangue do batismo seja esse elemento também construtivo, de fazer das tripas coração, de usar a carne e o osso para gerar o novo, para abrir novos caminhos, de fazer todo esse ritual diante dos ferros e das grades, diante dos olhos do torturador.

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É preciso caminhar em direção aos mistérios É impossível saber o que há ali no caminho, mas é preciso caminhar.

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