As fontes da rebeldia

Primeira parte da série “Grito de ódio: uma breve história do punk” relata a reação ao marasmo do rock n’ roll domesticado pelas grandes gravadores, com guitarras distorcidas e gritos

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por Ivan Conterno

“Em questão de apenas alguns meses, ‘punk’ se tornou a palavra mais usada no vocabulário pop”, escreveu o historiador Greg Shaw em 1977. Ao mesmo tempo, o New York Times alertava seus leitores que o punk estava “varrendo o país”. Realmente, o punk rock reverberava em todas as esquinas do mundo ocidental naquele ano.

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Lançada no começo de 1976, a revista Punk definitivamente “colocou a palavra no mapa”, como afirmou um dos fundadores, John Holmstrom. Punk era apenas um palavrão. Desde o começo do século, o termo era frequentemente usado para descrever músicos horríveis. Nos anos 50, os detratores de Elvis Presley se referiam a ele assim e, na década seguinte, diversas bandas de garagem eram xingadas da mesma forma, mas nenhum movimento musical tinha adotado essa alcunha até então.

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O ímpeto inicial

Os anos 60, como sabemos, começaram com a invasão britânica e terminaram na psicodelia hippie. A rebeldia do rock’n’roll dos anos 50, originalmente uma música negra que tinha encantado a juventude branca – para o horror das famílias cristãs – , foi fagocitada pelas grandes rádios e canais de TV. A indústria cultural conduziu o espírito dessa música do escandaloso apelo sexual para as canções puras e inocentes. Por outro lado, os rockeiros mais indecentes estavam morrendo de overdose. A geração entusiasta da psicodelia das drogas e do amor livre se perdia, ora no misticismo, ora numa ambição inconsciente qualquer.

Esses e outros fatores davam liberdade para a indústria da música levar o rock’n’roll, pelo focinho, dos pequenos clubes para os grandes estádios, onde as pessoas acampavam durante a noite para comprar os ingressos. Nascia o rock de estádio, e com ele, o ego gigante das super bandas e do rock progressivo. O rock’n’roll tinha nascido de uma explosão de desobediência de 3 minutos para, dez anos depois, promover sessões de tortura de 15 minutos de guitarra. Somado a isso, a juventude se deparava com discos espirituosamente incompreensíveis, rockeiros obcecados em serem levados a sério pela sociedade e, para finalizar, John Lennon e Yoko Ono pelados na cama. Tempos de fato moribundos!

Imagem: John Lennon

Destoando do que se ouvia nas grandes rádios, na mesma década surgiram, de dentro das garagens das famílias suburbanas, bandas que tocavam um rock’n’roll nada refinado: guitarras sujas e distorcidas, músicas enérgicas de três minutos sobre carros, mulheres, drogas psicodélicas e nada de paz e amor. Esses grupos adolescentes se proliferaram nos quatro cantos dos Estados Unidos. Entre 1964 e 1968, mais de 180 mil dessas bandas foram formadas no país. Com tanta publicidade em torno do rock de caráter quase pedagógico, obviamente elas não chegaram a fazer muito sucesso. Embora não tivesse grande público, esse tipo de som acabou sendo muito ouvido pelas crianças que, alguns anos mais tarde, iriam formar as primeiras bandas de punk rock. Algumas dessas bandas foram reunidas, mais tarde, pelo guitarrista da banda da Patti Smith na coletânea Nuggets.

No início de 1965, na ponta noroeste do país, um desse grupos, os Sonics, lançou o primeiro LP, gravado sem nenhuma cautela e dignidade, alcançando assim o som mais sujo e imponente daqueles anos: guitarras confusas, riffs sensacionais e gritaria ao estilo Little Richard. No ano seguinte, a fim de registrar “um som ao vivo”, a banda se superou, arrancando o isolamento acústico das paredes do estúdio. “Se nossos discos soam distorcidos, é porque eles são! Meu irmão Larry desconectava os alto-falantes e fazia um buraco neles com um picador de gelo. Foi assim que ficamos parecendo um acidente de trem.” constatou o baixista Andy Parypa, que entrou na banda substituindo a própria mãe.

Já em Nova Iorque, Lou Reed, que tinha passado por várias bandas de garagem, conheceu John Cale, que havia trabalhado com o compositor experimental John Cage. Em 1965, os dois formaram uma banda que se apresentava como nenhuma outra, o dissonante e atonal Velvet Underground. Andy Warhol, o artista pop que tinha feito a linguinha dos Rolling Stones, se tornou o empresário da banda e forçou a top model Nico a colocar sua voz assustadora nas gravações. 

Warhol ajudou a alavancar a fama do Velvet Underground, que chamava a atenção do público de que nem tudo era harmonia e gentileza. Enquanto os hippies cantavam sobre flores e os músicos mais famosos entediavam o mundo com suas fanfarras de mentirinha, o grupo de Lou Reed falava sobre heroína, taras sexuais, travestis e boquete.

Detroit, a cidade motor

Assim como outras bandas de garagem, o MC5, eram um grupo de adolescentes que ensaiavam no porão da casa da mãe e adoravam qualquer música rápida e furiosa. A banda quebrou todos os paradigmas em Detroit a partir de 1964 com um som potente que arrastava multidões. 

MC5 significava motor city five, ou seja, eram cinco jovens malucos da cidade motor. Detroit era famosa também pela gravadora Motown, que lançava os melhores artistas da música negra. Motown, por sua vez, era uma abreviação para “motor town”, mais uma vez em alusão à cidade motor, a terra das indústrias automobilísticas. A Universidade de Michigan ficava ao lado de Detroit, numa pequena cidade chamada Ann Arbor. Uma metrópole operária repleta de universitários com ideias radicais e uma cultura negra efervescente em meio à segregação racial era realmente uma combinação explosiva.

Em julho de 1967, a cidade foi sacudida pelos intermináveis motins nos bairros negros contra a violência policial. Questionado em uma entrevista sobre o que os brancos poderiam fazer para apoiar o movimento, Huey P. Newton, fundador do Partido dos Panteras Negras, respondeu que eles poderiam formar um Partido dos Panteras Brancas. Atento aos acontecimentos, John Sinclair, um poeta beat procurado pela polícia por distribuir maconha, decidiu fundar o partido.

Imagem: Ann Arbor District Library

O MC5 se juntou ao Partido dos Panteras Brancas, fazendo shows para financiar a organização comunista. Eles subiam no palco empunhando rifles e faziam discursos conclamando “irmãos e irmãs” para a revolução. Mas a repressão era intensa e, logo após um ônibus da banda ser arregaçado por uma bomba, os panteras brancas se mudaram para a cidade universitária de Ann Arbor, que era majoritariamente branca. “Em Ann Arbor só havia filhinhos de papai e a polícia era instruída a não causar problemas para eles”, confirmou Sinclair. Os músicos passavam o dia lendo O Capital chapados e só saíam para tocar para o público jovem e operário de Detroit. 

Um jovem de Ann Arbor apelidado de Iggy Pop decidiu se mudar para uma casa abandonada em Detroit e montar mais uma de suas bandas após conhecer os irmãos Scott e Ron Asheton. Eles formaram os Psychedelic Stooges e tocaram pela primeira vez na noite de halloween de 1967. Desde então, passaram a abrir os shows do MC5 no Great Ballroom, que ficava na cidade motor. A proposta inicial era mais experimental do que rock’n’roll, com Iggy fazendo barulho com um aspirador de pó e um liquidificador enquanto Scott martelava latas de óleo.

As performances de Iggy eram animalescas e nada convencionais. O vocalista, com uma coleira de cachorro no pescoço, rolava em cacos de vidro, jogava bancos do palco e, por fim, se jogava na plateia. Lester Bangs, o famoso crítico musical, relatou que, certa vez, a banda se apresentava para um público de motoqueiros totalmente hostil quando Iggy resolveu “alimentar essa hostilidade” mijando em cima de todo mundo. Em seguida, parou a música e disse “tudo bem, vocês são cuzões, querem ouvir Louie Louie” e ficou tocando a música durante 45 minutos, improvisando alguns versos: “you can suck my ass, you biker faggot sissies!” (“podem lamber o meu cu, seus motoqueiros viados bichonas”). Ao se jogar do palco nessa noite, Iggy apanhou tanto que teve que ser levado dali para o hospital.

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Em 1968, a gravadora Elektra contratou Danny Fields, um chegado de Andy Warhol, para divulgar os Doors, de Los Angeles. Nas idas e vindas com a banda, ele tentou arranjar um romance entre Nico, a musa do Velvet Underground, e o vocalista Jim Morrison, que não trocou uma palavra com a modelo e terminou a noite de porre e mijando nas próprias calças. No final daquele ano, com o saco cheio da banda, Danny foi assistir ao MC5 e aos Psychedelic Stooges em Detroit e por fim resolveu contratar as duas bandas para a gravadora. Esse homem foi o responsável pelos dois discos lançados pela Elektra que inspirariam todo o movimento punk anos mais tarde.

Um dos problemas é que a banda de Iggy Pop não tinha música nenhuma escrita. Ron criou as músicas do primeiro álbum em uma noite, logo após ligar para o comediante Moe Howard dos Três Patetas (Three Stooges) perguntando se poderia abandonar o “psychedelic” do nome, no que o ator respondeu “tô nem aí, eu quero que se foda!” No dia seguinte, o grupo gravou oito músicas de poucas frases e poucos acordes que definiriam todo tipo de música punk que surgiria na década seguinte.

Outra questão envolvia o MC5. Como se não bastasse a campanha anti-comunista que perseguia a banda com boicotes diversos e repressão policial nos shows, as lojas da rede Hudson resolveram tirar o disco da banda do catálogo devido ao palavrão gritado nos primeiros segundos da música que dá título ao álbum (“kick out the jams, motherfuckers! / quebrem tudo, filhos da puta!”). O jornalzinho publicado por Sinclair, no entanto, soltou uma página inteira onde se lia: “Quebrem tudo, filhos da puta! E chutem a porta da loja se eles não te venderem o álbum lançado pela Elektra. Fodam-se as lojas Hudson!”. Em resposta, a Hudson tirou todos dos discos de todas as bandas da Elektra das lojas e, em seguida, a gravadora rescindiu o contrato com o MC5.

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Outras bandas surgiram em Detroit inspiradas pelo MC5 e pelos Stooges, como os Dogs e Death. Essa última era formada apenas por negros e acompanhava a deixa de outra banda da cidade, o Black Merda, a primeira banda de rock’n’roll formada exclusivamente por negros (merda era uma forma coloquial para se escrever murder, não tendo nenhuma relação com a palavra em português). Os Dogs eram discípulos de John Sinclair, entretanto resolveram se mudar para Nova Iorque no início dos anos 70 para acompanhar uma nova cena musical que surgia.

Nova Iorque no início dos anos 70

Os Estados Unidos tinham entrado em recessão e Nova Iorque logo entrou em colapso. O desemprego era enorme, refletindo-se em altos índices de pobreza, prostituição e uso de drogas, embora estas cada vez mais escassas e de qualidade cada vez mais duvidosa. No plano internacional, os comunistas apavoravam mais do que nunca a hegemonia ocidental ao mesmo tempo que irrompia a guerra árabe-israelense. Na noite mais tensa, o primeiro-ministro britânico Edward Heath ligou para a Casa Branca para falar com o presidente Richard Nixon, que no entanto estava bêbado demais para discutir a crise social. O governo começava a se desintegrar.

Sem muito dinheiro no bolso, parte dos jovens da classe média mudava-se para apartamentos baratos em bairros infestados de crime. Em uma sociedade cada vez mais desmembrada, os jovens dos subúrbios começavam a buscar formas artística realmente esquisitas, desviando-se da monotonia predominante.

Na véspera de Natal de 1971, os New York Dolls tocaram pela primeira vez para o público de um albergue de sem-tetos. O grupo contava com David Johansen, um sósia do Mick Jagger mais gordo, Johnny Thunders, um guitarrista viciado, e mais três caras com perucas desgrenhadas, batom manchado, tamancos gigantes e calças metálicas coladas no pau trazendo um rock’n’roll impressionante de três minutos. O primeiro baterista morreu de overdose no ano seguinte, mas eles seguiram com outro, inclusive tocando na TV, para o dissabor dos apresentadores.

Desejados pelas gravadoras, mas sem público fora de Nova Iorque, eles já não tinham mais onde tocar em 1974. Felizmente, eles acabaram encontrando um velho amigo que haviam conhecido há dois anos numa loja de roupas em Londres, Malcolm McLaren, que estava nos Estados Unidos e resolveu empresariar a banda. No controle da banda, Malcolm criou uma estética comunista com roupas vermelhas para chocar os conservadores, o que levou ao boicote do grupo pelos empresários do ramo. A banda acabou, mas não antes de despertar toda uma nova cena musical na cidade.

A partir daqui, parece que o rock’n’roll estava, ao poucos, voltando a soar excitante e perigoso, o que correspondia às angústias adolescentes do momento. Percebendo que alguma coisa já estava acontecendo, três jovens recém chegados do interior lançaram em Nova Iorque a revista Punk

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Continua na próxima semana…

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