As férias na União Soviética após a Revolução de Outubro

A maioria dos trabalhadores recebia vales com direito a hospedagem por até quatro semanas em hotéis, resorts, colônias de férias e centros de lazer

Mar Negro na URSS, 1981. Imagem: Lyudmila2509
por Coletivo Pensar a História

Logo após o triunfo da Revolução de Outubro de 1917, atendendo a uma reivindicação feita ainda no século XIX pela Primeira Internacional, o governo socialista da Rússia instituiu as férias laborais remuneradas – com pelo menos duas décadas de antecedência em relação à maioria dos países ocidentais. Nos anos vinte, utilizando-se da estrutura dos solares, mansões e palácios desapropriados dos nobres e aristocratas russos, o governo soviético inaugurou uma série de resorts, hotéis e centros de lazer para usufruto dos trabalhadores e de suas famílias durante os períodos de férias. Esses estabelecimentos podiam ser acessados por meio de um sistema de vales.

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A duração das férias dependia da ocupação do trabalhador, podendo variar de 12 a 45 dias. Os trabalhadores recebiam o pagamento adiantado relativo ao período de férias acrescido dos dias trabalhados no mês. A maioria dos trabalhadores também recebia vales que davam direito a hospedagem por até quatro semanas em hotéis, resorts, colônias de férias e centros de lazer. Os vales costumavam ser coletivos, englobando a família do funcionário, e podiam ser integrais, cobrindo 100% da hospedagem e dos gastos com refeições, ou parciais, cobrindo 2/3 das despesas. Veteranos das forças armadas, mães solteiras, viúvas e pensionistas sempre tinham direito ao vale integral.

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As crianças soviéticas também quase sempre viajavam nas férias de verão. Quando não viajavam com suas famílias, costumavam ir para os acampamentos do Movimento dos Pioneiros – organização juvenil do Partido Comunista, voltada à educação comportamental e ao estímulo da prática de esportes e atividades ao ar livre. O principal acampamento dos Pioneiros ficava em Artek, na Crimeia.

Imagem: praia em Yalta, no litoral do Mar Negro. Crimeia, União Soviética.

Existiam milhares de resorts, colônias de férias e hotéis estatais espalhados pela União Soviética. Os destinos mais cobiçados pelos trabalhadores eram os chamados “sanatórios” – uma mistura de resort com centro médico, semelhante aos spas atuais. Os sanatórios costumavam ser instalados próximos ao litoral ou às estâncias termais. Nesses locais, os hóspedes tinham direito a até cinco refeições diárias, faziam check-ups, recebiam tratamentos médicos, massagens, nadavam, jogavam bilhar ou xadrez e eram entretidos todas as noites por peças de teatro ou apresentações musicais. Alternativamente, existiam hotéis e pensões mais simples, por vezes ofertando salões de baile ou discotecas. Também existiam excursões e passeios temáticos, pousadas campestres e estações de esqui.

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Os destinados mais procurados eram os resorts das regiões de Krasnodar (nomeadamente Sóchi), Crimeia (Ialta, Alushta e outros balneários do Mar Negro), Abecásia, Altai e Lago Baikal. Tirar férias nessas localidades podia exigir paciência, pois a fila de interessados costumava ser grande. Os resorts do Mar Báltico também eram muito procurados. Os balneários de Jūrmala, Pärnu e Palanga atraíam multidões e concentravam desde pousadas simples até hotéis de luxo, além dos restaurantes preferidos dos burocratas e militares soviéticos. Cidadãos não contemplados com o vale também podiam frequentar os resorts e hotéis estatais, mas precisavam arcar do próprio bolso com o custo da hospedagem. Muitos, entretanto, preferiam viajar por conta própria, sobretudo de trem. Costumavam alugar camas ou cômodos junto aos moradores locais, se hospedavam em pensões mais baratas ou acampavam.

Jogar xadrez na praia era uma das atividades favoritas dos banhistas soviéticos.

As praias soviéticas estavam quase sempre lotadas no verão e era preciso chegar cedo para encontrar um bom lugar. Também eram equipadas com quiosques, cafés, cantinas e restaurantes públicos, mas boa parte dos banhistas preferia levar lanches prontos para evitar filas. Passavam horas tomando banhos de sol e de mar, jogando xadrez, praticando atividades físicas ou passeando de caiaque. Os grandes centros urbanos ofereciam também opções de lazer para os que não podiam ou não queriam viajar até os destinos mais badalados. Os moscovitas costumavam frequentar a Represa de Istra para nadar e relaxar. Já em São Petersburgo, o principal destino dos banhistas era a praia situada junto à Fortaleza de São Pedro e São Paulo.

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O sistema de vales funcionou até 1988, pouco tempo antes da dissolução da União Soviética. Com a transição do socialismo para a economia de mercado, os hotéis e resorts foram privatizados e hoje integram grandes redes hoteleiras internacionais. Os valores cobrados pelas diárias e o aumento generalizado dos custos tornaram os antigos balneários soviéticos elitizados e inacessíveis para a maioria da população.

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