Aniceto do Império: o nome da resistência no samba

No samba e no sindicalismo, o fundador do Império Serrano ergueu a causa da resistência contra as elites com arte e luta operária no Rio de Janeiro

Imagem: reprodução
por Eduardo Afonso para os Arquivos do Samba

Resistência é uma palavra que tem nomes diferentes para cada pessoa, dependendo do ponto de perspectiva e do que vivenciamos. Para alguns de nós, resistência tem diversos nomes em si, como para Aniceto do Império: cultura, trabalho, sobrevivência, tradição.

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Aniceto de Menezes e Silva Júnior, de família de origem escrava, é claro, como quase todo negro no Brasil, é fundador da escola de samba Império Serrano, dissidência da Prazer da Serrinha, que ficava no mesmo lugar onde ele habitava, o Morro da Serrinha. Fundou-a junto de Tia Eulália, Mano Décio da Viola, Silas de Oliveira, Sebastião Molequinho, outras tias do samba e outros bambas. Uma escola que também grita o nome Resistência, só por sua condição de existência, só por ser uma organização cultural da classe trabalhadora nos tempos em que fora organizada. Mas também surgia com uma ideia de democracia, de horizontalidade, e por isso resistia também – pois a principal reclamação dos que compunham a Prazer da Serrinha era que a comunidade tinha pouco a decidir, ou seja, que a escola, que era pra ser da comunidade, passara a ter dono. Fundaram, então, a Império Serrano, democrática e ampla até os dias de hoje.

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Aniceto do Império. Imagem: reprodução

Sindicato Resistência

“Resistência” também era o nome dado ao Sindicato dos Arrumadores do Rio de Janeiro, antes Sindicato do Comércio Armazenador. O Sindicato abrangia os trabalhadores do cais do porto, onde trabalhava e versava seu Aniceto. Levava, junto de seus companheiros e amigos, sacos pesadíssimos sobre a cabeça sem o auxílio de qualquer tipo de ferramenta, e para eles isso se chamava Resistência, a do que o pescoço precisava ter pra resistir. Assim denominaram também o Sindicato, é claro, por entender que ali era onde teriam que resistir por outros motivos, talvez que pesassem ainda mais o pescoço.

Depois da longa e cansativa carga horária de trabalho, versava entre os malandros suas prosas e seu Partido Alto, onde começava a ganhar destaque. Todos eles ganhavam pouco, trabalhavam muito e viviam à margem da sociedade. Era o retrato de um Brasil em eterno desenvolvimento, nos primórdios do século passado.

Pois Aniceto, que é também em si o nome da Resistência, resolveu se organizar junto ao Sindicato para que, com seus companheiros, pudesse reivindicar melhores salários e melhores condições de trabalho. Conta, ele mesmo, em documentário de Zózimo Bulbul, que chegou a paralisar os trabalhadores em greve para negociar com o governo, que enviou um representante do Ministério do Trabalho para uma conversa com a classe.

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Reuniram-se em assembleia com os trabalhadores, e tiraram uma comissão para ir a Brasília lutar por melhorias para a classe. Voltaram com a bandeira da vitória, tiveram suas reivindicações atendidas.

Resistência no samba

Além da resistência primordial – a das condições de vida da classe trabalhadora e de suas conquistas -, Aniceto participa também da resistência que é o samba, em si. A história do samba se mistura com a do povo brasileiro e a opressão. Por anos o samba foi considerado coisa de marginal, como é o funk brasileiro nos dias atuais, como foi o rap no final dos anos 1980 e durante toda a década de 1990, como foi o rock’n’roll nos Estados Unidos quando ainda estava no berço, com os negros.

As classes dominantes (leia-se burguesia) sempre perseguiram e tentaram destruir a cultura tradicional dos povos, que os une por natureza, por espiritualidade e por espontaneidade. Assim foi com a capoeira, com o candomblé, e também com o samba.

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Aniceto viveu até os 81 anos, falecendo em 1993, já cego em decorrência de uma diabetes, mas viveu pra ver a Império Serrano criar hinos como a música Aquarela brasileira (composta por Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola), e ser campeã do carnaval do Rio de Janeiro 9 vezes, tornando-se a quarta maior vencedora da folia carioca. Em 1991, indagado sobre sua doença e como ele via aquele momento de sua vida por um entrevistador, Aniceto filosofou: “Graças a Deus, sou diabético. Porque Deus quer assim, e eu devo aceitar tudo aquilo que Ele manda. Ele sabe o que faz e eu não sei o que quero”.

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