A única banda que importa

Diante da avalanche de ataques neoliberais, o Clash procurou guiar o impulso da explosão punk em uma direção construtiva

Imagem: O Partisano
por Ivan Conterno

O texto abaixo é a sexta parte da série “Grito de ódio: uma breve história do punk“.

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O punk rock enfiou uma estaca no idealismo dos anos 60, já esgotado em 1977. A rebelião punk não poupou ninguém e o perigo era cair no niilismo extremo. Tentar aproveitar essa música para a propaganda política radical era uma aventura perigosa. No entanto, o Clash conseguiu! As canções incendiárias do grupo alertavam sobre a luta de classes e despertavam outras bandas para a política de esquerda. Foi fundamentalmente o Clash que criou uma visão positiva e militante no punk rock

Em 1983, quase todas as primeiras bandas punks já haviam se separado. O Clash, no entanto, firmava-se como a maior referência punk no mundo. O grupo se apresentava para centenas de milhares de pessoas. Aqueles garotos do Clash que em 1976 moravam em apartamentos ocupados, estavam no centro dos holofotes em 1983. Não à toa, eram frequentemente creditados como “a única banda que importa”.

The Clash, na capa da Rolling Stone de abril de 1980

O caos do movimento punk em 1977 foi o prenúncio de tempos sombrios. Poucos anos depois, Ronald Reagan e Margaret Thatcher governariam os Estados Unidos e o Reino Unido introduzindo o receituário da Escola Austríaca no planeta, esmagando as conquistas dos trabalhadores dos 30 anos anteriores.

Diante da avalanche de ataques neoliberais, o Clash procurou guiar o impulso da explosão punk em uma direção construtiva. “Nunca viemos para destruir”, disse o vocalista e guitarrista Joe Strummer ao Melody Maker em 1978, acrescentando anos depois: “tínhamos esperança em um mar de desesperança”.

Os primeiros anos

Apenas sete meses após o primeiro show, a banda assinou o contrato com a CBS para gravar o primeiro álbum. Mark Perry, do zine Sniffin’ Glue, disse que o punk havia morrido no dia em que o Clash assinou contrato com a CBS. Joe Strummer admitiu: “assinar aquele contrato me incomodou muito”. O problema é que o Clash queria ser o maior grupo do mundo e, ao mesmo tempo, permanecer como o porta-voz da revolução. Mas esse paradoxo era parte de um idealismo sincero da banda, que se afirmava no campo da esquerda socialista revolucionária. 

O grupo trabalhou freneticamente, lançando o disco em abril de 1977 no Reino Unido. O álbum começa com uma batida meio rockabilly seguida por alguns riffs parecidos com os dos Sex Pistols, outros parecidos com a porrada dos Ramones e alguma coisa lembrava um pub rock. Um autêntico disco de punk rock, não fosse um reggae no lado B contrastando com o clima explosivo, o que prenunciaria toda a versatilidade do grupo.

Membros do Clash com integrantes do Steel Pulse. Imagem: Caroline Coon

Bernie Rhodes, o empresário da banda, incentivava Joe Strummer e Mick Jones a escreverem sobre atualidades, evitando músicas bestas de corno. O objetivo era falar sobre a primeira geração que cresceu e percebeu que o futuro era um lixo. O beco sem saída da juventude foi narrado em “Career Opportunities”, inspirada em anúncios de emprego no jornal diário.

A CBS decidiu não lançar o disco nos Estados Unidos, alegando que o som não era bom para tocar no rádio. Isso retardou, mas não barrou a penetração do Clash na América. Foram mais de 100 mil discos encomendados para os Estados Unidos, o que obrigou a gravadora a lançar o álbum lá dois anos depois, numa versão alterada.

Nessa época o Clash estava sem baterista fixo. Quase todos os bateristas londrinos da época, que depois ficariam famosos, participaram dos testes para entrar na banda. O escolhido foi Topper Headon, um experiente baterista que já havia tocado de tudo.

O sucesso vertiginoso

Oito dias depois, a banda se deparou com um público de mais de 3 mil pessoas. “Essa foi a noite em que o punk realmente estourou”, confirmou Joe Strummer. “Estávamos no lugar certo, fazendo a coisa certa na hora certa. E esse tipo de noite acontece uma ou duas vezes na vida.” Não havia mais como voltar atrás.

O Clash logo alcançou um público enorme, levando a fama para apoiar o movimento do Rock Against Racism e a Liga Anti-Nazista. Joe caracterizava a postura anarquista de recusar contratos e fazer tudo artesanalmente como autodestrutiva. A banda queria levar a mensagem de mudança radical para um segmento cada vez mais amplo da população. 

Para escrever o segundo álbum, os músicos viajaram para a Jamaica. Tanto o segundo álbum, Give ‘Em Enough Rope, quanto o terceiro e mais famoso, London Calling, ampliaram os limites do punk rock. “Não quero ver o punk como algo pré-planejado e pré-pensado para que você fique confortavelmente acomodado como na música mod, hippie ou o rock’n’roll dos teddy boys”, dizia Joe. “O punk agora virou ‘ele está gritando, usando gíria, sem tentar cantar com o coração e o guitarrista está intencionalmente do mesmo jeito sempre e todos eles estão tocando o mais rápido possível, então isso é punk’… Deus nos ajude, fizemos tudo isso para chegar aqui?”

Nessa época a banda passou a ser gerenciada pela artista Caroline Coon. Para gravar o terceiro álbum, a banda criou uma rotina extremamente disciplinada de estúdio à tarde, seguida por uma partida de futebol, umas horas no bar e mais uma sessão à noite, todos os dias. A intenção era lançar um disco duplo pelo preço de um. Depois de muita chantagem com a gravadora, a banda conseguiu a proeza.

Paul Simonon e Caroline Coon. Imagem: reprodução

A visão ambiciosa da banda ficou ainda mais clara com o álbum triplo, Sandinista!, uma óbvia declaração de apoio à Frente Sandinista de Libertação Nacional, que havia derrubado o regime de Somoza na Nicarágua, além de uma provocação à censura que o governo americano havia estabelecido à palavra. O número do catálogo era “FSLN1”. Dessa vez os músicos do Clash apelaram: pediram um disco triplo pelo preço de um. Depois de muita negociação, a CBS teve que concordar de má vontade, mas a banda teve que abrir mão dos royalties.

Com 36 faixas, o álbum triplo foi a suprassunção do punk rock, com um som totalmente experimental e potente. Tinha de todo ali: jazz, salsa, reggae, funk, folk, disco music e até o recém criado rap.

Após esse álbum, a banda voltou a trabalhar com Bernie Rhodes. A visão de Bernie havia inspirado todo o conceito do Clash. Na ausência de Rhodes, o guitarrista Mick Jones tinha assumido o controle da banda. Joe Strummer estava insatisfeito com os rumos musicais e culpava-os pelas baixas vendas do Sandinista!

Bernie Rhodes e Kosmo Vinyl, os administradores da banda. Imagem: reprodução

Outro problema se tornou mais urgente: a dependência de drogas do baterista Topper Headon. Diversas músicas da banda ecoavam isso desde o primeiro álbum, como “Deny”, “Hateful”, “Junkie Slip” e “Ghetto Defendant”. Em uma turnê pelo oriente no início de 1982 Joe confrontou o baterista: “como posso cantar todas essas músicas antidrogas com você chapado atrás de mim?”

Insatisfeito com tudo, Joe Strummer sumiu do mapa em abril de 1982. Após três semanas desaparecido, ele foi encontrado disputando uma maratona em Paris. Após muita conversa, Joe concordou em retornar à banda, com a condição de expulsarem o baterista, que foi substituído pelo membro original, Terry Chimes.

Joe Strummer após a Maratona de Paris de 1982. Imagem: reprodução

Topper tinha composto o sucesso “Rock the Casbah” e teve que cair fora antes do lançamento. No último momento possível, Joe decidiu chamar o novo álbum de Combat Rock. O conceito do álbum era o que Joe queria ter colocado para o Sandinista!, distanciando das concepções de Mick Jones.

O número de catálogo do Combat Rock era “FMLN 2”, mais uma vez em referência aos revolucionários nicaraguenses. O disco recebia muitas críticas pesadas, mas as vendas só aumentavam. “Should I Stay or Should I Go” subiu nas paradas, seguido por “Rock the Casbah“, que foi parar no Top 10 da MTV. O Clash estava estourando no maior mercado do mundo, apresentando em locais cada vez maiores. Então foram convidados pela banda The Who para abrirem a turnê de despedida dos veteranos. Esse show ficaria gravado no álbum ao vivo Live at Shea Stadium, lançado muitos anos mais tarde.

O Clash estava no auge. Foi aí que receberam a oferta de meio milhão de dólares (equivalente a quase um milhão e meio hoje) para  ser a atração principal do US Festival, no sul da Califórnia, o Woodstock dos anos 1980. Kosmo Vinyl, uma espécie de assessor da banda, diria que “festivais são o sonho de um hippie, mas o pesadelo de um punk”. Joe chegou a dizer que gostava mesmo era de espaços apertados onde podia olhar os fãs nos olhos.

US Festival, em 1983. Imagem: reprodução

Mas também era um bom momento para o Clash defender o seu “rock revolucionário”. Ou talvez meio milhão de dólares para pouco mais de uma hora de trabalho tenha sido irrecusável. Seja qual for a mistura de motivos, eles assinaram. Mas havia um problema: não havia banda. Vendo a briga entre Mick e os outros dois, Terry caiu fora. O roadie, The Baker, ficou encarregado de encontrar um baterista às pressas. Desesperado, ele colocou um anúncio na revista Melody Maker, Peter Howard foi o escolhido e o show rolou sem mais dificuldades.

O nocaute

Os problemas internos, no entanto, continuaram. Os dois principais compositores, Joe e Mick, não confiavam mais um no outro. As frequentes faltas aos ensaios de Mick levaram à sua demissão. Uma semana antes do anúncio oficial, Joe, Paul e Bernie começaram a procurar por guitarristas com anúncios anônimos na Melody Maker. Nick Sheppard e Greg White foram escolhidos entre mais de 100 candidatos, dois para substituir um. White adotou o pseudônimo de Vince depois que Simonon reclamou que preferia desistir do que tocar em uma banda com alguém chamado Greg.

A nova banda gravou o sexto álbum entre janeiro e fevereiro de 1985. Joe brigou com Bernie, que nunca tinha composto nada e havia se encarregado não só da composição como da produção do disco. O empresário achava que tinha inventado um novo gênero que misturava electro, hip hop e técnica cut-up, substituindo os músicos por sons sintéticos e samples de programas de TV.

Após sua expulsão do Clash, Mick fundou o General Public com os ex-membros do grupo de ska The Beat. Logo depois, se juntou a Don Letts para criar o Big Audio Dynamite. Enquanto isso, tentava barrar na justiça o uso do nome Clash e da grana dos discos pela banda de Joe Strummer. 

No início de 1986, o novo Clash finalmente se desfez. Logo em seguida, Joe foi encontrar Mick nas Bahamas, num fim de semana, e se desculpou. Mas Mick estava bem com sua nova banda e não quis retomar o Clash. Paul Simonon formou o Havana 3am, que tocava uma espécie de rockabilly com salsa e reggae e Joe Strummer foi fazer filmes e trilhas sonoras.

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Durante os anos 90, surgiram boatos de que a banda poderia se reunir, mas isso nunca aconteceu. As esperanças acabaram após a morte de Joe em 2002. O mais próximo de uma reunião aconteceu quando Paul e Mick tocaram juntos ao se juntarem aos Gorillaz em 2010. Todo o legado da banda, por incrível que pareça, foi construído em menos de uma década.

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