Obituário: Brasil se despede do ícone do café da tarde

Conhecido por ser confundido com um bolo de fubá, Januário teve uma boa vida de gato, falecendo de velhice

Ilustração: @loveonlyfeeIing
por Bibi Tavares

Antigamente, quando alguém era muito gato, as avós — as jovens da época — diziam que fulano era um pão. Januário com certeza era um gato, mas a receita demandava mais ingredientes, fazendo dele um bolo! A data de nascimento do gato é um mistério, ninguém realmente sabe quando nasce um gato, mas com certeza sabe e chora quando morre um.

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Ao que tudo indica, Januário nasceu em Caucaia, cidade cearense, numa ninhada de muitos ou poucos filhotes. Seus pais biológicos também são desconhecidos. O pai, assim como uma boa parte de sujeitos-homens, fugiu no mundo logo que a mãe engravidou. Já bem buchudinha, a mãe de Januário se ajeitou como pôde em qualquer lugar coberto e com umas dúzias de papelão e, ali mesmo, trouxe Januário ao mundo. O ano, o dia e o mês são um mistério, assim como os felinos.

Desprendida de fortes laços familiares, confiante na sua cria, marxista e adepta ao poliamor, a mãe de Januário solta o pequeno para o mundo, após completar o tempo que precisava para se nutrir da mãe. Para um lado, foi a mãe, em busca de novas aventuras, sachês e gatos — ou pães — por aí. Para o outro, foi o jovem Januário, apenas um gato latino-americano sem dinheiro no bolso, mas pronto para cativar corações pelo Ceará.

Vida acadêmica e busca por um lar

O jovem Januário estava certo que o turismo era sua praia, então resolveu se matricular na universidade mais próxima. Quatro anos depois, formado pela UFF – Universidade Federal Felina -, o rapazinho foi se aventurar no mercado de trabalho, mas sempre com uma vontade paralela que ele não sabia o que era. Depois de muito viajar, um belo dia Januário resolve se estabelecer em sua cidade natal, pronto para formar uma família fora dos moldes conservadores. O que Januário não esperava era que encontraria na feira, numa manhã de domingo, Carlos Nogueira, um cearense apaixonado por gatos e louco para ser pai.

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Foi amor à primeira vista! Entre ronronadas e carinhos no pescoço, Januário notou que aquilo era o que ele queria: receber carinho o dia todo. O gato logo se mudou para a casa de Nogueira, onde ganhou dois irmãos adotivos. Jacó e Churupeta logo se animaram com a ideia de ter mais um irmão na área, já que sair de bonde é sempre mais seguro. Emocionado, o pai adotivo dos felinos sempre dizia que “dar muito sachê de salmão e amor é tudo que um filho precisa”. O primogênito bichano, exemplo para os demais gatos da rua, então compôs uma canção que se eternizaria na voz de Gonzagão: “Luiz, respeita Januário”. Acostumado a sestear no peitoril, foi confundido com fêmea por um apressado viajante Chico Buarque, que reparou na fama local sem se ocupar do sexo: “toda gente homenageia Januária na janela, até o mar faz maré cheia pra chegar mais perto dela”. Até então a essa pequena celebridade não o afetara.

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A fama, problemas com leite de caixinha e rehab

Januário ganharia fama nacional quando seu pai, Carlos Nogueira, publicou uma foto em que o gato deitado numa peça de crochê parecia um bolo! Vale ressaltar que nosso astro tinha as cores muito similares as de um bolo de fubá.

 

 

O bolo-gato. Não bola-gato, importante não confundir

O bolo-gato ficou nacionalmente conhecido por essa publicação, com mais de 14 mil curtidas e milhares de comentários. Com mais fama, veio também a tentação. As gatinhas do bairro faziam fila para tomar uns copos de leite com Januário. Ele, bolo, porém não bobo, passou a encher a cara com leite de caixinha todos os dias, sair com gatas de todos os lugares, voltando pra casa quase todo dia lá pras 6h da manhã com o maior bafo azedo. Alguns dizem até que Januário esteve metido com sacos de lixo rasgados e leite em pó.

O tempo foi passando e aquela vida ia deixando Januário cada vez mais deprimido, se lembrando das longas tardes que passava cochilando no crochê. Por iniciativa própria, o não tão jovem Januário passou uma temporada na rehab, onde conseguiu voltar às suas raízes e sossegar o rabo.

A redenção de um gatinho

Januário teve uma vida boa. Voltou correndo da rehab para casa dos pais, onde passava várias tardes de domingo assistindo aos jogos do Fortaleza com seu pai e comendo um petisquinho.

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Pai e filho unidos pelo time do coração

Com o passar dos anos, Januário foi ficando cada vez mais caseiro, afinal, já estava cansado da labuta. Gostava mesmo era de brincar com seus irmãos, que também já tinham uma certa idade. Em 22 de abril desse ano, Januário teve um grande baque em sua vida: seu irmão Jacó havia morrido após um atropelamento! Dizem que, a partir desse dia, Januário perdeu uma parte de seu brilho. Já não queria mais petisco, ignorava as bolinhas de papel e rejeitava caixas de papelão.

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Janu sempre lembrava com carinho do seu tempo de gato bolo. Ficava feliz em ter feito seu pai adotivo feliz, mas também pensava com ternura em sua mãe. Em 2 de maio desse ano, Januário descansou em paz. Depois de uma vida agitada, viagens, gatas, ração boa e carinho no pescoço, Januário virou estrelinha e foi reencontrar, feliz da morte, seu irmão Jacó.

Tchau, Janu!

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